O filme Deixe-me Viver nos coloca diante de uma questão que transborda a tela e invade o consultório: o que acontece com o sujeito que não encontra um lugar no desejo do Outro? Embora a obra siga uma linha espiritualista, a mensagem central toca em uma ferida puramente psicanalítica, a importância de ser “antecedido” por uma narrativa de amor e acolhimento.

Para a psicanálise, o nascimento biológico é apenas o início de uma longa jornada de humanização. Antes mesmo de respirarmos, já somos falados, sonhados ou, em casos de dor, rejeitados pelos nossos pais. Esse “lugar” que ocupamos no psiquismo de quem nos cuida é o que Freud chamava de solo para o desenvolvimento. O filme, ao narrar a luta de espíritos que buscam o direito de encarnar, nos faz pensar naqueles pacientes que, mesmo adultos, carregam a sensação de que estão “pedindo licença” para existir.

A angústia do desamparo é o pano de fundo aqui. Quando uma vida é interrompida ou negada, seja no ato real ou no abandono simbólico, cria-se um buraco na trama geracional. No filme, vemos o esforço para reparar esses laços; no divã, vemos o esforço do sujeito para se autorizar a viver, apesar das marcas da não aceitação. É o que Lacan nos lembra sobre a importância de sermos desejados: a vida só se sustenta se houver um Outro que nos reconheça como alguém singular, e não apenas como um objeto ou um fardo.

O título Deixe-me Viver soa como o apelo de muitos que chegam à análise. Não é apenas um pedido para sobreviver, mas para habitar um corpo e uma história com dignidade. É o desejo de transformar o “destino” de uma rejeição precoce em uma possibilidade de escolha. Como profissionais da escuta, nosso papel assemelha-se ao trabalho de resgate proposto na obra: oferecer um espaço onde o sujeito possa, finalmente, ser “adotado” por si mesmo, construindo um direito de existir que não dependa mais de permissões externas, mas da sua própria verdade ética.

No fim, falar sobre o direito de viver é falar sobre a responsabilidade que temos uns com os outros. Seja na espiritualidade ou na clínica, a cura passa necessariamente pelo reconhecimento de que toda existência precisa de um porto, e que a palavra é o único caminho para transformar o desamparo em vida.

Ultimamente, o silêncio do meu consultório tem sido preenchido por um tipo de angústia que parece ter a mesma raiz, embora se manifeste de formas opostas. De um lado, recebo pessoas que chegam fragmentadas, com uma dificuldade quase paralisante de se olharem com o mínimo de benevolência, sem saber ao certo o que desejam ou para onde apontam suas bússolas internas. É um deserto de si, onde o “não sei o que quero” esconde, na verdade, um medo profundo de não ser o bastante para o próprio desejo. De outro, vejo o amor ser convocado como uma ferramenta de gestão, quase uma planilha de controle, onde o outro não é um par, mas um objeto que precisa se moldar perfeitamente às expectativas de quem ama. Nessas histórias, o afeto vira posse e a vulnerabilidade do parceiro é lida como uma falha no sistema que precisa ser corrigida.

O que une esses dois extremos é a dificuldade de lidar com a alteridade, com aquilo que o outro tem de incontrolável e que nós mesmos temos de faltante. Vivemos o tempo do descarte não apenas porque jogamos relações fora com facilidade, mas porque descartamos a subjetividade em prol de um ideal narcísico. Freud nos ensinou que o narcisismo é uma proteção, uma espécie de armadura que nos impede de sentir a dor da nossa própria incompletude. Quando não sabemos o que queremos, muitas vezes é porque estamos esperando que o mundo nos dê uma resposta pronta, um manual de instruções que nos poupe da angústia da escolha. E quando tentamos controlar o outro sob a máscara do amor, estamos, no fundo, tentando calar a incerteza que a presença de um sujeito livre nos causa. Lacan dizia que amar é dar o que não se tem, mas no tempo do consumo, queremos dar o que temos em excesso, controle, cobrança, regras, ou pedir o que o outro não pode nos oferecer, a cura para o nosso próprio vazio.

O amor que sobrevive a essa lógica do descarte é aquele que suporta o desamparo. É o amor que entende que o outro nunca será a peça que falta no nosso quebra-cabeça, mas alguém que caminha ao lado enquanto ambos tentam entender seus próprios furos. Percebo na minha prática que a cura não vem de encontrar o parceiro ideal ou de se tornar “perfeito” para si mesmo, mas de conseguir sustentar o olhar diante do espelho e do outro sem o desejo de aniquilar o que é diferente. O amor real começa justamente quando o controle falha e a gente se permite não saber tudo. Talvez o grande ato de coragem hoje seja aceitar a nossa própria imperfeição para que, enfim, possamos dar lugar ao encontro verdadeiro, aquele que não cabe em uma caixa e que não se joga fora na primeira frustração. Afinal, se o amor é o que nos humaniza, o descarte é o que nos apaga.

A abertura do Super Bowl LX não foi apenas um espetáculo de luzes e ritmos latinos; foi um manifesto político e subjetivo que ecoará por muito tempo na nossa percepção de cultura e saúde mental. Quando Bad Bunny subiu ao palco e bradou que “Juntos somos América”, ele não estava apenas corrigindo um erro geográfico comum, mas realizando um movimento profundo de afirmação da identidade frente ao que a psicanálise chama de “Grande Outro”. Esse Grande Outro representa a ordem social, as leis e as expectativas que nos rodeiam e que, para a comunidade latina nos Estados Unidos, frequentemente tenta silenciar sua língua e apagar sua história sob o pretexto de uma integração que, na verdade, é anulação.

A performance de Bad Bunny (com bandeiras de todo o continente e críticas diretas às políticas de imigração e ao sistema estabelecido) foi um ato de resistência psíquica em estado puro. Ao se recusar a performar o papel do “latino idealizado”, aquele que apenas entretém sem incomodar, ele reivindicou o direito de existir em sua totalidade, peitando a elite e mostrando que a saúde mental de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de narrar sua própria história com as suas próprias palavras. Sob a ótica da neuropsicologia, sabemos que o sentimento de não-pertencimento e o preconceito sistemático geram um estado de alerta constante e estresse tóxico, o que afeta diretamente a regulação emocional e a autoestima, criando uma espécie de trauma crônico.

Quando um artista desse porte ocupa o maior palco do mundo para dar voz aos marginalizados, ele oferece uma ferramenta de reparação simbólica. Ele transforma a dor da exclusão em orgulho coletivo, permitindo que o sujeito saia da posição de objeto — aquele que é olhado e julgado — para a posição de autor da sua própria vida. A frase “Somos todos América” é, portanto, um convite para abandonarmos a “colonização psíquica” que sofremos diariamente quando tentamos nos encaixar em moldes alheios para sermos aceitos. No fim, a verdadeira liberdade e a saúde mental florescem quando paramos de pedir permissão para ser quem somos e passamos a ocupar nossos espaços com a dignidade de quem conhece o valor de suas raízes.

Às vezes, quando o dia termina e o silêncio finalmente se instala, sinto que ele não chega como uma ausência de som, mas como uma presença quase física. Para muitos de nós, esse momento é assustador. Corremos para o celular ou ligamos qualquer ruído de fundo porque o silêncio, na nossa cultura do desempenho, soa como solidão. Mas, na minha prática e nas minhas leituras, aprendi a olhar para esse vazio de outra forma, especialmente através das lentes sensíveis de Winnicott.

Winnicott nos presenteou com um conceito belíssimo: a capacidade de estar só. Para ele, essa não é uma habilidade que nasce conosco, mas uma conquista do desenvolvimento que começa lá atrás, no colo. É aquela cena comum de um bebê brincando calmamente enquanto a mãe ou o cuidador lê um livro ao lado. O bebê está só, mas está só na presença de alguém. Esse “alguém” garante um ambiente seguro, um holding que permite que a criança não precise se defender do mundo, apenas existir.

Transportando isso para a nossa vida adulta e para o meu trabalho no consultório, percebo que perdemos essa segurança. O mundo barulhento de hoje parece um ambiente “invasivo”, que exige que estejamos o tempo todo reagindo a estímulos. Quando não há barulho, sentimos que o suporte sumiu. O medo do silêncio, no fundo, é o medo de que, se pararmos de produzir ruído, deixaremos de existir ou seremos invadidos por angústias antigas.

Na análise, o meu silêncio enquanto profissional tenta resgatar esse ambiente suficientemente bom. Não é um silêncio de indiferença, mas um silêncio de companhia. É como se eu dissesse: “Pode parar de falar um pouco. Pode apenas ser. Eu estou aqui sustentando o espaço para você”. É nesse intervalo, quando a pessoa para de tentar me explicar o mundo e começa a sentir a própria existência, que algo autêntico acontece.

Winnicott dizia que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo“. E, para mim, o silêncio é o quintal onde essa brincadeira do pensamento acontece. Sem a pausa, a vida vira uma sucessão de reações automáticas, o que ele chamava de “Falso Self”. Já no silêncio protegido, o nosso “Verdadeiro Self” pode finalmente colocar o nariz para fora e respirar.

Por isso, o convite que faço hoje é o de não temer esses minutos de mudez. Que possamos redescobrir o silêncio não como um abismo de solidão, mas como um espaço de repouso e criação. Porque as vezes, a maior conversa da nossa vida acontece justamente quando as palavras decidem descansar.

Você sabia que o Brasil bateu recorde de feminicídios em 2025?
Foram cerca de 1.470 mulheres assassinadas. Talvez você já tenha ouvido esse número antes. Talvez tenha passado rápido por ele. Mas eu te pergunto: o que esse dado provoca em você quando você para pra sentir?

Em 2026, a média continua a mesma, quatro mulheres mortas por dia. Não é uma estatística distante, fria, impessoal. São mulheres como nós. Mulheres que trabalharam, cuidaram, amaram, planejaram. Mulheres que tiveram suas vidas interrompidas, muitas vezes, apenas por dizer NÃO.

Talvez a leitura não fique leve. E não deve ficar. Porque não estamos falando de algo abstrato. Estamos falando de vínculos que adoecem, de relações em que o limite feminino é vivido como ameaça. Estamos falando de mulheres mortas por exercer algo básico: a própria vontade.

A maioria desses assassinatos acontece dentro de casa, cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Isso desmonta uma ideia muito comum de que o perigo vem de fora. O risco, na maioria das vezes, está no íntimo, no cotidiano, no vínculo que um dia foi chamado de amor. O espaço que deveria proteger se transforma em cenário de aniquilamento.

E talvez você também se pergunte: como isso acontece?
Como alguém mata alguém que diz amar?

Do ponto de vista psicanalítico, essa pergunta é fundamental. O feminicídio não começa no ato final. Ele começa quando a mulher deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ocupar o lugar de objeto. Objeto que deve corresponder, permanecer, não frustrar. Quando essa mulher diz não, quando se separa, quando escolhe por si, o que aparece, em muitos casos, é a incapacidade psíquica de lidar com a perda, com o limite, com a frustração.

Na clínica, sabemos: quando não há simbolização, há atuação. E a atuação, levada ao extremo, pode ser violenta. Pode ser destrutiva. Pode ser fatal.

O feminicídio se sustenta em fantasias antigas de posse e controle, reforçadas por uma cultura que ainda naturaliza a dominação masculina e responsabiliza a mulher por conflitos que não são dela. Não se trata apenas de indivíduos violentos, mas de uma estrutura que autoriza, silencia e repete.

Por isso, estratégias de enfrentamento pensadas apenas para o espaço público falham. A violência acontece no privado, no vínculo, no que é invisível aos olhos sociais. Enquanto insistirmos em tratar o feminicídio como exceção, como tragédia isolada, continuaremos contando mulheres mortas, muitas delas assassinadas no momento em que tentaram se separar, se proteger ou simplesmente dizer não.

Talvez o mais difícil seja admitir: isso nos atravessa. Fala de como a sociedade lida com a autonomia feminina, com o desejo, com a frustração masculina e com a dificuldade histórica de reconhecer a mulher como sujeito de direito e de desejo.

A psicanálise não oferece respostas fáceis, mas oferece algo essencial: a possibilidade de escutar o que esse fenômeno denuncia sobre nossos vínculos e sobre a cultura em que vivemos. Fingir que não vemos é repetir. Encarar é, ao menos, tentar interromper.

Se esse texto não ficou leve, é porque o tema não permite.
Mas talvez ele cumpra uma função ainda mais importante: não deixar que o NÃO de uma mulher continue sendo motivo de morte.

Existe uma fantasia silenciosa que ronda muitas relações entre pais e filhos: a de que o filho deve realizar aquilo que o adulto não conseguiu. Não é sempre consciente. Quase nunca é dita em voz alta. Mas aparece no detalhe, na cobrança, no olhar que se decepciona fácil demais.

Na psicanálise, o narcisismo não nasce como problema. Ele é fundamental. Todo bebê começa sendo “Sua Majestade”. O olhar investido dos pais é o que sustenta o sentimento de existir. O problema começa quando esse investimento não abre espaço para a diferença, quando o filho não pode ser outro. Quando o adulto não suporta a diferença. Quando a criança deixa de ser sujeito e passa a ser extensão. O filho vira espelho: precisa refletir sucesso, obediência, beleza, desempenho, maturidade precoce. Não porque isso seja bom para ele, mas porque sustenta algo frágil no adulto.

E aqui vale dizer: não estamos falando apenas de pais autoritários ou difíceis. Muitas vezes, isso se disfarça de cuidado excessivo, de expectativas altas “para o bem dele”, de um investimento que sufoca. O filho até corresponde, mas paga caro. Cresce tentando adivinhar o desejo do outro, com medo de decepcionar, sem saber exatamente o que quer.

Existem as crianças que não conseguem sustentar esse lugar impossível, e quando isso acontece surgem os sintomas: ansiedade, agressividade, retraimento, dificuldades escolares, somatizações. O sintoma, na clínica, muitas vezes é o primeiro “não” que esse sujeito consegue dizer.

De acordo com Freud, criar um filho implica aceitar uma perda: a perda da criança ideal. Winnicott já nos lembrava que o cuidado suficientemente bom não é o perfeito, mas aquele que falha e permite que o outro exista. Pais que não toleram essa falha tendem a exigir do filho aquilo que deveria ter sido elaborado em sua própria história.

Não é fácil reconhecer isso. Dá trabalho olhar para o próprio narcisismo. Mas é libertador. Para os pais, porque ninguém aguenta sustentar um ideal para sempre. Para os filhos, porque só há saúde psíquica quando há espaço para ser quem se é, e não quem se esperava que fosse.

Muitas vezes, não é falta de amor. É amor que não suportou a diferença. Talvez a pergunta mais honesta não seja “o que eu quero para meu filho?”, mas: o que do meu próprio desejo estou colocando sobre ele? E só assim, quando essa pergunta aparece, algo já pode começar a mudar.