Basta chegar uma festa à fantasia para começar o ritual. A pessoa passa dias pensando no que vai vestir, vasculha o armário, compra uma peruca, testa a maquiagem no espelho. Tem quem vá de vampiro, de bruxa, de super-herói, de personagem de novela. E tem algo curioso nisso: quase todo mundo, mesmo quem diz que “não liga muito para essas coisas”, sente uma pontinha de alegria quando se olha no espelho e não se reconhece por completo. No Brasil, a gente conhece bem esse prazer. Antes de o Halloween começar a aparecer por aqui, já tínhamos o Carnaval, que é praticamente uma festa nacional da fantasia. Por que será que gostamos tanto de, por algumas horas, ser quem não somos?
Uma primeira resposta é simples: dá descanso. No dia a dia, cada um de nós carrega uma porção de papéis. Somos o funcionário responsável, a mãe que dá conta de tudo, o filho que não pode decepcionar, o amigo que sempre está bem. Esses papéis são importantes, mas também pesam. A fantasia oferece uma pausa autorizada. Por uma noite, ninguém espera que a bruxa seja pontual ou que o pirata responda e-mails. A roupa diferente funciona como um aviso para nós mesmos e para os outros: hoje as regras de sempre estão suspensas.
Mas tem uma resposta mais interessante, e um pouco mais desconfortável. A fantasia que escolhemos raramente é aleatória. A pessoa tímida que vai de rainha poderosa, o rapaz sempre certinho que aparece de vilão, a mulher que passa o ano cuidando de todo mundo e resolve ir de feiticeira temida. Há quem diga que a máscara não esconde, ela revela. O escritor Oscar Wilde tem uma frase famosa nesse sentido: dê uma máscara a alguém e essa pessoa vai finalmente dizer a verdade. A fantasia é um jeito seguro de deixar aparecer partes nossas que normalmente ficam guardadas: a vontade de mandar, de provocar, de ser admirado, de ser assustador, de ser livre. Como “não sou eu, é a fantasia”, a gente se permite.
Isso não é coisa só de adulto. Na verdade, começa muito antes. Toda criança brinca de ser outra pessoa: de médica, de professor, de leão, de super-herói, de mãe da boneca. Brincando de ser outro, ela experimenta o mundo, ensaia sentimentos que ainda não sabe nomear, testa como seria ter coragem, poder ou medo. Crescer não acaba com essa necessidade. Só faz com que ela fique mais escondida. A festa à fantasia é um dos poucos lugares em que o adulto ainda recebe permissão para brincar desse jeito, e talvez por isso ela seja tão divertida.
E existe ainda uma terceira camada, talvez a mais bonita. A própria palavra “pessoa” vem do latim persona, que era o nome da máscara usada pelos atores no teatro antigo. É como se a língua guardasse uma pista: todo mundo, de algum modo, já está sempre usando algum tipo de máscara. O jeito como falamos no trabalho, a versão de nós que mostramos nas redes sociais, a cara que fazemos numa reunião de família. Nada disso é falsidade. É a forma como conseguimos conviver. A diferença é que, na festa à fantasia, a máscara é escolhida, assumida e divertida. E, quando a tiramos no fim da noite, às vezes percebemos que a de todos os dias também é, em parte, uma escolha.
Por isso, se você for a alguma festa à fantasia neste fim de semana, ou se só ficar pensando no que vestiria se fosse, vale prestar atenção na escolha. Não para se analisar demais, mas por curiosidade. Quem você gostaria de ser por uma noite? E o que essa personagem pode fazer que você, no dia a dia, ainda não se permite? Às vezes, a fantasia diz muito mais sobre quem somos do que a roupa que usamos todos os dias.

