Basta chegar uma festa à fantasia para começar o ritual. A pessoa passa dias pensando no que vai vestir, vasculha o armário, compra uma peruca, testa a maquiagem no espelho. Tem quem vá de vampiro, de bruxa, de super-herói, de personagem de novela. E tem algo curioso nisso: quase todo mundo, mesmo quem diz que “não liga muito para essas coisas”, sente uma pontinha de alegria quando se olha no espelho e não se reconhece por completo. No Brasil, a gente conhece bem esse prazer. Antes de o Halloween começar a aparecer por aqui, já tínhamos o Carnaval, que é praticamente uma festa nacional da fantasia. Por que será que gostamos tanto de, por algumas horas, ser quem não somos?

Uma primeira resposta é simples: dá descanso. No dia a dia, cada um de nós carrega uma porção de papéis. Somos o funcionário responsável, a mãe que dá conta de tudo, o filho que não pode decepcionar, o amigo que sempre está bem. Esses papéis são importantes, mas também pesam. A fantasia oferece uma pausa autorizada. Por uma noite, ninguém espera que a bruxa seja pontual ou que o pirata responda e-mails. A roupa diferente funciona como um aviso para nós mesmos e para os outros: hoje as regras de sempre estão suspensas.

Mas tem uma resposta mais interessante, e um pouco mais desconfortável. A fantasia que escolhemos raramente é aleatória. A pessoa tímida que vai de rainha poderosa, o rapaz sempre certinho que aparece de vilão, a mulher que passa o ano cuidando de todo mundo e resolve ir de feiticeira temida. Há quem diga que a máscara não esconde, ela revela. O escritor Oscar Wilde tem uma frase famosa nesse sentido: dê uma máscara a alguém e essa pessoa vai finalmente dizer a verdade. A fantasia é um jeito seguro de deixar aparecer partes nossas que normalmente ficam guardadas: a vontade de mandar, de provocar, de ser admirado, de ser assustador, de ser livre. Como “não sou eu, é a fantasia”, a gente se permite.

Isso não é coisa só de adulto. Na verdade, começa muito antes. Toda criança brinca de ser outra pessoa: de médica, de professor, de leão, de super-herói, de mãe da boneca. Brincando de ser outro, ela experimenta o mundo, ensaia sentimentos que ainda não sabe nomear, testa como seria ter coragem, poder ou medo. Crescer não acaba com essa necessidade. Só faz com que ela fique mais escondida. A festa à fantasia é um dos poucos lugares em que o adulto ainda recebe permissão para brincar desse jeito, e talvez por isso ela seja tão divertida.

E existe ainda uma terceira camada, talvez a mais bonita. A própria palavra “pessoa” vem do latim persona, que era o nome da máscara usada pelos atores no teatro antigo. É como se a língua guardasse uma pista: todo mundo, de algum modo, já está sempre usando algum tipo de máscara. O jeito como falamos no trabalho, a versão de nós que mostramos nas redes sociais, a cara que fazemos numa reunião de família. Nada disso é falsidade. É a forma como conseguimos conviver. A diferença é que, na festa à fantasia, a máscara é escolhida, assumida e divertida. E, quando a tiramos no fim da noite, às vezes percebemos que a de todos os dias também é, em parte, uma escolha.

Por isso, se você for a alguma festa à fantasia neste fim de semana, ou se só ficar pensando no que vestiria se fosse, vale prestar atenção na escolha. Não para se analisar demais, mas por curiosidade. Quem você gostaria de ser por uma noite? E o que essa personagem pode fazer que você, no dia a dia, ainda não se permite? Às vezes, a fantasia diz muito mais sobre quem somos do que a roupa que usamos todos os dias.

Em outubro se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental, no dia 10, e é provável que nesta semana você esbarre em muitas mensagens sobre autocuidado, equilíbrio e bem-estar. São mensagens importante, mas no meio delas, costuma passar despercebida uma ideia que vale a pena desmontar com calma: a de que ter saúde mental é estar bem o tempo todo.

Basta abrir as redes sociais para encontrar a versão mais polida da vida dos outros. Rotinas matinais impecáveis, rostos descansados, conquistas em sequência, frases motivacionais lembrando que “só depende de você”. Aos poucos, sem que ninguém diga isso em voz alta, vai se formando uma espécie de regra silenciosa: quem está triste, cansado, irritado ou confuso está fazendo alguma coisa errada. Como se o sofrimento fosse uma falha de gestão pessoal, algo a ser corrigido rapidamente com a técnica certa, o hábito certo ou o produto certo.

O curioso é que essa regra, em vez de nos deixar mais leves, costuma pesar ainda mais. Quem já se sentiu mal e, logo em seguida, se sentiu culpado por estar se sentindo mal conhece bem esse efeito. A tristeza de um dia difícil ganha uma segunda camada: a vergonha de não estar dando conta. E aí não sofremos só pelo que aconteceu, mas também por não conseguir sustentar a imagem de quem nunca balança.

Existe uma diferença importante entre sofrer e adoecer. Ficar triste quando alguém querido vai embora, sentir medo diante de uma mudança grande, ficar irritado depois de uma semana exaustiva, chorar sem saber exatamente por quê, nada disso é, por si só, sinal de que algo está quebrado. Na maior parte das vezes, é sinal de que estamos vivos e de que as coisas nos afetam.

Podemos pensar no luto, quando perdemos alguém, ou mesmo um emprego, uma relação, um plano que parecia certo, precisamos de tempo para nos despedir daquilo que já não existe. Esse trabalho é lento, dói, e não acontece em linha reta. Há dias melhores e dias piores. Tentar pular essa etapa, fingindo que está tudo bem antes de estar, raramente resolve. Muitas vezes, o que não foi vivido volta depois, por outros caminhos: no corpo, no sono, numa irritação que não se explica, numa sensação de vazio que aparece sem aviso.

Os sentimentos difíceis também costumam trazer notícias. A angústia que aparece toda vez que você pensa em determinado assunto, o cansaço que não passa mesmo depois das férias, a tristeza que volta sempre na mesma época do ano: tudo isso diz alguma coisa sobre a sua história, sobre o que você deseja e sobre o que está sendo difícil de encarar. Calar esses sinais à força é um pouco como desligar o alarme de incêndio porque o barulho incomoda.

Por isso, ter saúde mental não é estar bem o tempo todo, talvez ter saúde mental seja algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais rico. Seja a possibilidade de atravessar os momentos ruins sem se perder completamente neles. De conseguir, mesmo nos dias difíceis, continuar se relacionando com as pessoas, cuidando minimamente de si, trabalhando, criando, encontrando algum sentido nas coisas. De poder sentir raiva sem destruir tudo, tristeza sem desaparecer, medo sem se paralisar por completo.

Ter saúde mental também passa por conseguir falar do que se sente. Não necessariamente para todo mundo, nem o tempo todo, mas ter algum lugar onde a sua dor possa ser dita e escutada sem pressa de ser consertada. Há algo de muito aliviador em perceber que aquilo que parecia insuportável dentro da cabeça ganha outro tamanho quando é colocado em palavras e encontra alguém disposto a ouvir.

Alguns sinais merecem atenção: quando a tristeza ou a ansiedade duram semanas e não dão trégua; quando fica difícil dormir, comer, trabalhar ou estudar; quando você se afasta de pessoas e atividades que antes importavam; quando surgem pensamentos de que a vida não vale a pena ou de que seria melhor não existir.

Nesses casos, procurar um psicanalista e um psiquiatra não é sinal de fraqueza, e sim de cuidado. A análise não serve para fazer alguém “voltar a estar bem o tempo todo”, até porque isso nunca existiu. Serve para abrir espaço para entender o que está acontecendo, dar sentido ao que se repete e encontrar formas menos dolorosas de viver com aquilo que não pode ser simplesmente apagado.

Talvez a mensagem mais útil deste mês dedicado à saúde mental não seja mais uma lista de dicas para ficar bem, mas uma permissão: a de não estar bem às vezes. Porque saúde mental não é a ausência de tempestades. É poder atravessá-las sem precisar fingir que o céu está sempre azul.

Existe um tipo de sofrimento que não aparece em exame, não deixa marca na pele e não costuma ser anunciado em voz alta. Ele acompanha a pessoa até o trabalho, senta com ela à mesa do almoço de domingo, ri das piadas do grupo e responde “tudo certo” quando alguém pergunta como ela está. De fora, a vida parece seguir normalmente. Por dentro, algo pesa de um jeito difícil de explicar até para si mesmo.

Uma das coisas mais solitárias da dor que ninguém vê é justamente esse descompasso, estar sofrendo e, ao mesmo tempo, estar cumprindo tudo o que se espera. Pagar as contas, responder as mensagens, cuidar dos filhos, entregar o relatório. Muita gente imagina que quem sofre de verdade para de funcionar, e por isso acredita que, se ainda dá conta das coisas, é porque “não é tão grave assim”. Esse raciocínio engana. Há pessoas que se mantêm de pé justamente porque não se permitem parar, e há dores que se escondem melhor quanto mais a pessoa é considerada forte, responsável ou “a que resolve tudo”.

Às vezes a dor não fica escondida só dos outros. Ela fica escondida da própria pessoa. Nem sempre sabemos nomear o que sentimos. O que aparece é um cansaço que o sono não resolve, uma irritação desproporcional por coisas pequenas, uma dor de cabeça que insiste, uma vontade de sumir do grupo, uma dificuldade de sentir prazer no que antes era bom. O corpo e o comportamento começam a dizer o que a boca ainda não conseguiu dizer. Quando uma coisa não encontra palavras, ela costuma encontrar outro caminho para se mostrar, e esse caminho quase sempre é mais confuso e mais custoso do que uma conversa teria sido.

Por que é tão difícil falar? Uma parte da resposta está no medo do julgamento. Muita gente cresceu ouvindo que chorar é fraqueza, que tristeza passa sozinha, que “tem gente com problema muito pior”. Essa última frase merece atenção, porque ela aparece com frequência na cabeça de quem sofre. Comparar dores é uma forma de se calar. A existência de alguém em situação mais difícil não torna a sua dor menos real, do mesmo jeito que a existência de alguém com uma fratura não faz sua gripe desaparecer. Sofrimento não é competição, e ninguém precisa provar que merece ser ouvido.

Outra parte da resposta está na sensação de que, ao falar, a pessoa vai incomodar, preocupar ou decepcionar quem ama. Então ela protege os outros escondendo o que sente, e fica sozinha exatamente no momento em que mais precisaria de companhia. É um cuidado que acaba se voltando contra quem cuida. E há ainda uma terceira dificuldade, mais silenciosa, a de não ter certeza de que alguém realmente vai escutar. Quem já tentou dizer algo difícil e recebeu de volta um conselho apressado, uma mudança de assunto ou um “pensa positivo” aprende rápido a guardar para si.

Isso nos leva a uma ideia importante: a dor precisa de alguém que a testemunhe. Não necessariamente de alguém que a resolva, que dê a resposta certa ou que tenha passado pela mesma coisa, mas de alguém que esteja disposto a ouvir sem pressa de encerrar o assunto. Quando falamos para alguém que escuta de verdade, algo muda. Aquilo que era um peso sem forma começa a ganhar contorno. Ao tentar explicar para o outro, a pessoa muitas vezes descobre o que sente. Falar não é só desabafar, é também uma maneira de se entender. É por isso que tantas pessoas saem de uma conversa sincera dizendo “eu nem sabia que estava pensando isso até dizer em voz alta”.

Para quem está do outro lado, isso também diz muito. Estar perto de alguém que sofre não exige ter as palavras perfeitas. Exige presença. Perguntar “como você está?” e esperar a resposta de verdade, sem aceitar tão rápido o “tô bem”. Notar mudanças: o amigo que parou de aparecer, a colega que anda mais calada, o filho que se isolou no quarto, o pai que perdeu o interesse pelas coisas de que gostava. Dizer “percebi que você anda diferente, quer conversar?” pode abrir uma porta que a pessoa não teria coragem de abrir sozinha. E, quando ela falar, resistir à tentação de minimizar, corrigir ou comparar. Às vezes a coisa mais útil que se pode dizer é simplesmente “isso parece muito pesado, obrigado por me contar”.

Também vale lembrar que há sofrimentos que pedem ajuda profissional, e incentivar essa busca não é se livrar do problema, é um gesto de cuidado. Um espaço de escuta como a análise existe justamente para isso. Um lugar onde se pode falar sem medo de preocupar, sem precisar parecer forte, sem ter que editar o que se sente para caber na expectativa de ninguém. Ali, aquilo que parecia confuso demais para ser dito tem tempo para ir encontrando suas palavras.

Talvez o convite mais importante seja o de continuar olhando com atenção para os outros e para nós mesmos.

Se você se reconheceu em algo deste texto, considere que a sua dor merece ser dita, mesmo que ainda não saiba bem como. Pode começar com uma frase pequena para alguém de confiança, ou com a procura por um profissional de saúde mental. Aqui na clínica temos profissionais qualificados que vão te acolher e ajudar nessa caminhada

E, se em algum momento o peso parecer grande demais, não espere: o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188 e também pelo chat no site cvv.org.br. Em situações de emergência, ligue para o SAMU no 192 ou procure o pronto-socorro mais próximo. Você não precisa atravessar isso sozinho.

Hoje é a data-limite para que as grandes plataformas digitais entreguem, no Brasil, os primeiros relatórios de transparência sobre proteção de crianças e adolescentes exigidos pelo ECA Digital, a lei que, desde março, obriga redes sociais, lojas de aplicativos e sistemas operacionais a verificar a idade de seus usuários e a vincular as contas de menores de 16 anos ao perfil de um responsável. É uma data que passa quase despercebida fora dos departamentos jurídicos das empresas de tecnologia, mas que vale a pena parar para pensar: afinal, quem protege nossos filhos quando eles estão conectados?

A pergunta parece ter uma resposta óbvia. Protege a lei, que agora exige identificação e supervisão. Protegem os filtros de conteúdo, os controles parentais, os aplicativos de bloqueio. Protege, também, a própria plataforma que, sob risco de multas que podem chegar a 10% do faturamento da empresa, precisa remover material impróprio e notificar autoridades em casos graves. Tudo isso é real e necessário. Depois de anos em que crianças de nove, dez anos passavam horas em redes pensadas para adultos, sem qualquer barreira, é um avanço que o Estado reconheça, formalmente, que a infância exige um cuidado diferenciado também no ambiente digital.

Mas há uma pergunta que a lei, sozinha, não consegue responder e é justamente essa pergunta que interessa a quem escuta crianças e famílias no consultório: o que, exatamente, protege uma criança?

Proteger não é apenas impedir o acesso a um conteúdo. É ajudar a construir, dentro da criança, a capacidade de reconhecer um limite, de tolerar um “não”, de distinguir entre o que ela deseja no impulso do momento e o que, de fato, lhe faz bem. Essa capacidade não nasce pronta. Ela se forma na relação com um adulto que, além de amar, também frustra, interrompe, que segura o tempo da criança quando ela mesma ainda não consegue segurá-lo, que sustenta um limite não porque a rejeita, mas porque a ama o bastante para não lhe dar tudo o que ela pede. É esse tipo de presença, alguém que às vezes diz não e continua ali, que ensina a uma criança que existe um mundo além do próprio desejo imediato, e que esse mundo pode ser suportado.

O problema é que boa parte do ambiente digital foi desenhada para fazer exatamente o oposto. Um aplicativo não cansa, não hesita, não diz não. Cada rolagem de tela é respondida com outra imagem, outro vídeo, outro estímulo, numa sequência ajustada para nunca interromper. Ali não há um adulto atento, capaz de perceber quando já é hora de parar. Há um sistema treinado para responder a cada clique com mais um clique, a cada instante de vazio com mais um conteúdo. Para uma criança em formação, essa resposta ilimitada não é liberdade, é justamente a ausência daquilo que a ajudaria a se organizar por dentro.

É por isso que nenhuma política pública de proteção, por mais bem-vinda que seja, substitui a presença de um adulto disposto a conversar, a perguntar o que a criança viu, a tolerar o desconforto de negar mais uma hora de tela. A verificação de idade impede que uma criança de oito anos abra uma conta indevida, mas não impede que um adolescente, já com acesso legítimo, passe horas exposto a um fluxo de conteúdo desenhado para capturar sua atenção até o limite. A vinculação da conta ao perfil do responsável formaliza uma supervisão, mas supervisão não é a mesma coisa que presença. É possível acompanhar de longe, pela tela do celular dos pais, e ainda assim deixar a criança sozinha diante da própria tela.

Há algo, então, que caminha em paralelo à regulação e que nenhuma lei consegue legislar: a disponibilidade do adulto para ocupar, na vida da criança, o lugar de quem interrompe, de quem escuta o que ficou incômodo depois de um vídeo ou de uma conversa on-line, de quem se interessa pelo que a criança viu sem transformar isso em interrogatório. Essa presença é o que dá sentido a qualquer ferramenta técnica de proteção. Sem ela, a lei existe, mas o vazio que as plataformas exploram continua lá, porque esse vazio não é tecnológico, é da estrutura psíquica de quem ainda está aprendendo a lidar com o próprio desejo.

Vale lembrar, também, que proteção não deve virar vigilância total que, à sua maneira, também desprotege. Um controle que rastreia cada mensagem, cada busca, cada segundo de tela, sem nenhum espaço de privacidade, ensina à criança que ela nunca está sozinha consigo mesma, e isso tem um custo psíquico próprio, ainda pouco discutido no debate sobre segurança digital. Proteger não é eliminar todo risco. É sustentar, ao lado da criança, uma margem de erro e de descoberta que ela precisa atravessar para crescer.

Talvez a resposta mais honesta para a pergunta deste texto seja dupla. A lei protege a estrutura: define limites mínimos, responsabiliza empresas, cria mecanismos de fiscalização que antes não existiam e isso importa, principalmente para famílias que não têm tempo, informação ou condições de acompanhar sozinhas cada aplicativo que os filhos usam. Mas a presença de um adulto disponível protege o sentido: é ela que transforma uma regra externa em um limite que a criança, aos poucos, aprende a sustentar por conta própria. Uma sem a outra deixa a proteção incompleta. Por isso, talvez, a pergunta “quem protege nossos filhos quando eles estão conectados?” não deva ser respondida escolhendo entre a lei e a família, mas lembrando que nenhuma das duas, sozinha, pode dar conta da tarefa.

Alerta de gatilho

Todo mês de setembro, o amarelo toma as redes sociais, os prédios públicos, as camisetas de campanha. É a cor escolhida há dez anos, no Brasil, para lembrar que existe um problema que insistimos em tratar como assunto de bastidores: o suicídio. Hoje, 10 de setembro, é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, data instituída pela Organização Mundial da Saúde em 2003 e que o Brasil transformou, a partir de 2015, em campanha de um mês inteiro.

Mas há algo nessa campanha que vale a pena parar e pensar, além das estatísticas (que são graves) só em 2024, o Brasil registrou mais de 16 mil mortes por suicídio, uma média de 44 pessoas por dia. Esse número não fala sozinho. Ele esconde uma pergunta que atravessa consultórios, salas de aula, mesas de jantar: por que, tantas vezes, quem sofre não consegue dizer que está sofrendo?

A resposta mais fácil é pensar que a pessoa “não quis” pedir ajuda, ou que “escondeu bem” o que sentia. Mas a experiência clínica mostra algo mais delicado: existe uma dor que não encontra palavras não porque a pessoa se recuse a falar, mas porque, naquele momento, a linguagem simplesmente não alcança o que está sendo sentido. É como tentar descrever uma cor a alguém que nunca a viu, as palavras chegam perto, mas não fecham o círculo. Só que, aqui, o que fica de fora não é uma cor, é um sofrimento que continua ali, pesando, mesmo sem nome.

A psicanálise convive com essa ideia há mais de um século: nem toda dor cabe em frase. Há sofrimentos que a pessoa sente no corpo antes de conseguir pensar sobre eles, no sono que não vem, no cansaço que não passa, no corpo que emagrece ou trava. Há dores que aparecem primeiro como irritação, como isolamento, como um silêncio que dura semanas. Nenhuma dessas formas é fingimento ou drama. São, muitas vezes, a única linguagem disponível para algo que ainda não virou palavra.

Isso muda o que significa “ficar atento” no Setembro Amarelo. Não se trata apenas de esperar que alguém diga, com todas as letras, “estou pensando em morrer”, embora, quando isso acontece, deva ser levado a sério, sempre, sem minimizar. Trata-se também de aprender a escutar o que se diz por outros caminhos: a mudança de rotina, o afastamento repentino, as frases que soam como despedida disfarçada de piada, o “está tudo bem” repetido rápido demais. Escutar, aqui, é mais do que ouvir o conteúdo, é notar a forma, o tom, o que se repete, o que muda.

E há uma segunda parte, tão importante quanto a primeira: perguntar diretamente não aumenta o risco, ao contrário, costuma aliviar. Existe um mito antigo de que falar sobre suicídio “planta a ideia” na cabeça de alguém. As evidências apontam na direção oposta. Perguntar com cuidado, sem julgamento, costuma abrir uma porta que a pessoa não sabia como abrir sozinha. Às vezes, a pergunta de outra pessoa é a primeira vez que aquela dor ganha um contorno, um lugar para existir fora da cabeça de quem sofre.

Setembro Amarelo não é sobre ter a resposta certa ou o discurso perfeito. É sobre estar disponível para uma conversa que pode ser desconfortável, sustentar o silêncio quando as palavras ainda não vêm, e não desistir de perguntar de novo amanhã. É também sobre lembrar que buscar ajuda profissional não é o último recurso, é um cuidado, como qualquer outro cuidado com a saúde.

Se você, ou alguém que você conhece, está passando por um momento assim, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias, pelo telefone 188, e também por chat e e-mail em cvv.org.br. Em situações de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192. Nenhuma dor precisa ficar sem palavra até o fim.

Setembro começou e com ele duas coisas que quase nunca aparecem juntas: a semana da Independência e um ano de eleições. Isso é uma boa desculpa para nos perguntarmos: será que existe independência de verdade — de uma pessoa ou de um país — ou toda independência depende, sempre, de outros?

Jacques Lacan defendia uma ideia que contraria o senso comum: a de que nossos desejos não nascem de dentro para fora, como se fossem só “nossos”. Eles se formam na relação com os outros — a família, a cultura, a língua que falamos, as regras da sociedade em que crescemos.

Na prática, isso quer dizer que, antes de “querer” alguma coisa, a gente já nasceu dentro de um monte de influências que não escolheu. Ninguém escolhe a língua que vai falar, a época em que nasce, os valores que a família passa. Então, quando a gente acha que está “decidindo por conta própria”, na verdade estamos decidindo dentro de um espaço que já foi moldado por outras pessoas antes da gente.

Isso não significa que somos fantoches, sem nenhuma escolha própria. Significa que a ideia de um “eu” totalmente livre, que decide tudo sozinho, de dentro para fora, é mais uma história que a gente conta para si mesmo do que um fato.

Um exemplo disso é a Independência, nós comemoramos como se fosse o momento em que o Brasil deixou de depender de qualquer coisa. Mas, olhando com mais calma, essa ideia é parecida com a fantasia da liberdade individual total, ela ajuda a contar uma história bonita, mas não descreve a realidade por completo.

Um país “independente” continua dependendo de outros países, de acordos comerciais, de decisões econômicas que não controla sozinho. Isso não anula a Independência, só mostra que “ser independente” nunca quer dizer “não depender de nada”.

Votar também é um bom exemplo dessa mistura entre escolha própria e busca por outra pessoa. Quando alguém vota, está escolhendo, mas também está procurando, no candidato, alguém que “traduza” o que essa pessoa deseja e sinta falta na sociedade.

É por isso que a política mexe tanto com as emoções: não é só uma questão de concordar com propostas, é também uma questão de se identificar com alguém, de projetar nessa pessoa uma esperança de que “agora vai resolver”.

A prática clínica mostra, no entanto, que nenhuma liderança consegue resolver tudo (nem para uma pessoa, nem para um país inteiro) porque sempre vai sobrar alguma insatisfação, alguma coisa que falta. Isso é normal, faz parte de sermos seres que vivem em sociedade, não é um defeito a ser consertado.

Portanto, se a liberdade total é mais fantasia do que realidade, isso não quer dizer que não vale a pena buscar autonomia. Existe uma diferença importante entre: viver seguindo o que os outros esperam sem perceber isso; e perceber que os outros influenciam nossas escolhas, e mesmo assim ir se responsabilizando por elas.

É nesse segundo sentido que “ser independente” pode ser entendido como um processo contínuo, e não como algo que se alcança de uma vez por todas. O mesmo vale para um país: ele nunca deixa de depender de outros, mas pode aprender a negociar melhor essa dependência.