A Derrota do Brasil e o Luto que Ninguém Percebe.

Essa semana, muitos de nós sentimos a mesma coisa: decepção, tristeza e, para alguns, até raiva. A nossa seleção brasileira, o país conhecido mundialmente como “o país do futebol”, foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo.

É curioso como um jogo de futebol consegue mexer tanto com a gente. Durante dias, vestimos a camisa, mudamos a rotina para assistir às partidas, criamos expectativas, imaginamos o caminho até a final. E, quando o apito encerra o sonho, algo dentro de nós também parece terminar.

Logo surgem os comentários: “É só futebol”, “Semana que vem ninguém lembra mais”, “Tem problemas muito maiores para se preocupar”. E é verdade que existem problemas maiores. Mas isso não significa que o que sentimos seja pequeno.

A psicanálise nos ensina que não sofremos apenas quando perdemos pessoas. Também sofremos quando perdemos aquilo em que investimos desejo, esperança e afeto.

Quando o Brasil entra em campo em uma Copa do Mundo, não torcemos apenas por onze jogadores, torcemos pelas lembranças da infância assistindo aos jogos com a família, pelos amigos reunidos em frente à televisão, pela sensação rara de ver um país inteiro vibrando pelo mesmo motivo. Torcemos pela fantasia de que, desta vez, tudo dará certo. Por algumas semanas nos esquecemos desses grandes problemas que temos. E é justamente essa fantasia que morre quando a eliminação acontece.

Freud dizia que o luto não acontece apenas diante da morte de alguém. O luto é a resposta psíquica a qualquer perda significativa. Perdemos relacionamentos, oportunidades, versões de nós mesmos e sonhos que alimentamos por muito tempo. Em cada uma dessas perdas, há um investimento afetivo que precisa ser retirado daquilo que já não existe.

É exatamente esse trabalho que, muitas vezes sem perceber, fazemos depois de uma derrota como essa.

Algumas pessoas ficam irritadas e procuram um culpado. Outras fazem piadas. Algumas evitam assistir ao restante da competição. Há quem simplesmente perca o interesse pelo futebol durante alguns dias. Cada uma dessas reações é uma forma de lidar com a frustração.

No fundo, a eliminação da Seleção acaba funcionando como um espelho. Ela revela como cada um de nós costuma enfrentar as perdas da vida. Há quem negue, quem racionalize, quem se revolte e quem consiga, aos poucos, aceitar que nem tudo acontece como imaginamos.

Talvez seja por isso que essa tristeza pareça tão desproporcional para quem olha de fora. Porque ela não fala apenas de futebol, ela fala de expectativa, pertencimento, identidade e esperança.

A Copa do Mundo termina para um time. Mas, dentro de cada torcedor, termina também uma história que vinha sendo construída há semanas e, para muitos, desde a última Copa.

Talvez o luto pela derrota do Brasil nunca tenha sido apenas sobre futebol. Talvez ele seja mais uma lembrança de que viver é apostar, criar expectativas e, inevitavelmente, aprender que nem todos os sonhos chegam até a final.