A esperança e o Ideal do Eu no torcedor

A copa do mundo está rolando e eu amo essa energia; é fascinante ver como todo mundo torce, mas, ao mesmo tempo, não há brigas ou discussões, e somos capazes de sentir uma tristeza genuína até pelo nosso próprio adversário. Esse cenário, onde a paixão esportiva convive com uma estranha forma de empatia, diz muito sobre como construímos o nosso Ideal do Eu.

Quando vemos alguém, no meio de uma multidão vestida com as mesmas cores, olhando fixamente para o campo, vemos mais do que uma paixão esportiva, vemos uma projeção intensa. A Copa do Mundo, em toda a sua magnitude, funciona como um grande espelho coletivo onde depositamos não apenas a torcida, mas uma parte do que gostaríamos de ser e de realizar. Esse “Ideal do Eu” é como um norte psíquico, uma imagem idealizada de perfeição, triunfo e completude que buscamos alcançar.

No futebol, o jogador que corre atrás da bola e levanta a taça torna-se, naquele instante, a personificação desse ideal que vive em cada um de nós. A esperança, então, ganha um contorno quase palpável: acreditamos, talvez por um momento, que se o nosso time triunfar, nós também, de alguma forma, estamos superando nossas próprias limitações e alcançando aquele topo inalcançável.

É um fenômeno curioso, porque a derrota de um time pode ser sentida como uma pequena ferida narcísica, uma frustração que reverbera lá dentro, justamente porque parte da nossa esperança estava depositada ali. Ao mesmo tempo, essa união pelo esporte nos oferece um lugar de pertencimento, um espaço onde o individual se funde ao coletivo sob a proteção de um ideal compartilhado.

Entender esse movimento, de como colocamos tanto de nós mesmos fora, nos objetos e nos ídolos, é um dos caminhos para compreender a força que nos move e a forma como a esperança se mantém viva, mesmo quando o apito final do juiz insiste em nos trazer de volta para a realidade comum. No fundo, torcer é um exercício complexo de manter o desejo aceso, nutrindo esse ideal que, mesmo sabendo ser inalcançável, é o que dá cor e sentido à nossa busca pessoal por algo maior.

Por isso, VAI BRASIIIIL!!