Nem Toda Dor Faz Barulho.
Antes de começarmos, um aviso: o texto de hoje aborda um tema sensível relacionado ao sofrimento psíquico e ao suicídio.
Nesta semana, a notícia da morte do jovem jogador sul-africano Jayden Adams comoveu o mundo todo. Aos 25 anos, vivendo aquilo que para muitos seria o auge da carreira, sua partida despertou uma pergunta difícil, mas necessária: como alguém que aparentemente tinha tanto a conquistar pode carregar um sofrimento tão profundo? Até o momento, as circunstâncias de sua morte seguem sendo investigadas e a família pediu respeito e privacidade.
Até ontem, fiquei pensando se deveria abordar este tema. Não queria ser apenas mais uma pessoa transformando uma tragédia em assunto. Mas decidi escrever porque ainda existe uma ideia muito equivocada sobre o sofrimento psíquico: a de que uma pessoa com depressão está sempre deitada, sem forças para levantar da cama. Embora isso possa acontecer, especialmente em quadros graves, essa não é a única forma de sofrimento.
A reflexão que quero trazer é outra. Muitas vezes, a dor se disfarça. Ela veste sorrisos, compromissos, produtividade e uma aparente normalidade. Nem sempre conseguimos perceber que a pessoa ao nosso lado está sofrendo. Nem sempre aquele sorriso é, de fato, um sinal de que está tudo bem.
Vivemos em uma cultura que nos ensina a reconhecer a dor apenas quando ela grita. Quando ela aparece em lágrimas, em pedidos explícitos de ajuda, em crises visíveis.
Freud já dizia que o sofrimento psíquico nem sempre encontra palavras. Muitas vezes ele aparece disfarçado em sintomas, em silêncios, em um cansaço que não passa, em um vazio difícil de nomear. Nem mesmo quem sofre consegue compreender completamente aquilo que sente.
É por isso que histórias como essa nos impactam tanto. Porque elas rompem a fantasia de que sucesso, reconhecimento ou dinheiro funcionam como proteção contra o sofrimento emocional. Não funcionam. O psiquismo humano não obedece à lógica das conquistas. É possível ser admirado por milhares de pessoas e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinho.
No consultório, aprendemos que cada sujeito carrega uma história invisível. Existe uma parte da vida que nunca aparece nas fotografias, nas entrevistas ou nas redes sociais. Há perdas, conflitos, culpas, medos e dores que permanecem escondidos até mesmo daqueles que convivem diariamente conosco. O problema é que nem todos conseguem pedir ajuda a tempo.
Talvez a maior lição diante de acontecimentos como esse seja abandonar a pressa em julgar e fortalecer nossa capacidade de escutar. Nem sempre uma pessoa que está sofrendo conseguirá dizer claramente “eu preciso de ajuda”. Às vezes ela apenas se afasta. Às vezes trabalha demais. Às vezes sorri menos. Às vezes continua fazendo tudo exatamente como antes só que com um ritmo diferente.
Por isso, a psicanálise nos convida a sustentar um lugar raro na sociedade: o da escuta. Escutar sem corrigir, sem minimizar, sem responder imediatamente com frases de efeito. Muitas vezes, oferecer um espaço em que alguém possa existir com sua dor já é, por si só, um gesto profundamente terapêutico.
Falar sobre sofrimento psíquico não é incentivar o desespero. É justamente o contrário. É lembrar que nenhuma dor precisa ser enfrentada em absoluto silêncio. Quando encontramos um lugar onde nossa palavra pode ser acolhida, algo daquilo que parecia impossível de suportar começa, pouco a pouco, a ganhar outra forma.
Então que, a comoção provocada por essa perda nos convide menos à curiosidade sobre o que aconteceu e mais ao cuidado com aqueles que caminham ao nosso lado. Porque nem toda dor faz barulho. E, justamente por isso, toda escuta pode fazer diferença.



