O mundo nunca esteve tão conectado, mas a sensação de estar sozinho nunca foi tão forte. Parece contraditório: temos centenas de amigos virtuais, grupos de mensagens que não param de apitar e acesso à vida de qualquer pessoa com um clique. Por que, então, ainda sentimos aquele aperto no peito quando o celular descarrega ou quando o dia termina? A resposta pode estar no fato de que conectar aparelhos é fácil, mas conectar com pessoas dá trabalho.

Na psicanálise, a gente entende que o ser humano precisa do outro para se sentir real. O problema é que, na internet, muitas vezes não buscamos um encontro de verdade, buscamos apenas um “curtir” ou uma visualização. É como se estivéssemos tentando matar a fome com comida de plástico: ela até parece bonita, mas não nutre. A dor da solidão hoje vem desse excesso de imagens que não preenchem o nosso vazio interno. A gente vê todo mundo feliz nas redes e acaba sentindo que só a nossa vida é sem graça ou solitária.

Outro ponto importante é que desaprendemos a ficar em silêncio. Antigamente, o tédio ou a espera eram momentos para pensar na vida. Hoje, qualquer segundo de pausa é preenchido por uma espiada no Instagram. Quando finalmente paramos, não sabemos mais como lidar com os nossos próprios pensamentos. Estar sozinho virou algo assustador, como se fosse um sinal de que ninguém nos quer, quando, na verdade, estar bem consigo mesmo é o primeiro passo para ter relacionamentos saudáveis.

Para diminuir essa dor, o caminho não é deletar todas as redes, mas entender que quantidade não é qualidade. Uma conversa profunda com um amigo vale mais do que mil interações superficiais. A solidão dói porque estamos trocando a presença real pela aparência digital. O desafio agora é reaprender a fechar as abas do navegador para conseguir abrir espaço para o que realmente importa: o olho no olho e o carinho que não precisa de filtro para existir.

A Páscoa está chegando e, muito antes desta semana, os chocolates já estavam expostos. O susto com os preços pautava os comentários, mas, quanto mais perto chegamos da data, mais vazias vemos as prateleiras. Ué? Mas não estava caro? O que nos faz comprar aquilo que não nos cabe?

Em um mundo regido pelo imediatismo do clique e pela vitrine incessante das redes sociais, o ato de comprar deixou de ser uma simples troca de bens para se tornar um fenômeno complexo de subjetividade. Frequentemente, nos vemos diante de uma fatura de cartão de crédito que não condiz com a nossa realidade financeira, segurando um objeto que, minutos antes, parecia ser a peça que faltava para o nosso quebra-cabeça existencial.

A psicanálise nos ensina, e já comentei diversas vezes por aqui, que o desejo humano é, por natureza, insaciável. Diferente da necessidade, que se resolve com o objeto adequado, como a fome que passa após a refeição, o desejo desliza de objeto em objeto. O chocolate, nesse contexto, representa o consumo material. Ele oferece um prazer momentâneo, uma descarga de dopamina e uma sensação de preenchimento, mas, por ser um substituto simbólico, ele jamais atinge a raiz da carência que o originou.

Muitas vezes, o consumo excessivo funciona como uma tentativa de bloquear uma falta constituinte. Compramos para aliviar a ansiedade, para sustentar uma imagem que gostaríamos que os outros vissem ou para punir a nós mesmos em um ciclo de culpa e gratificação. A compra por impulso surge como uma promessa de completude: “Minha páscoa não será a mesma se não comer esse ovo“ ou ´´É só nessa época que tenho essa oportunidade“. No entanto, como o objeto é concreto e a falta é simbólica, o abismo permanece.

Viver além das posses financeiras é, muitas vezes, uma forma de viver além das posses psíquicas. É a dificuldade de lidar com o “não”, com o limite e com a frustração de que não podemos ter tudo. O mercado capitalista se aproveita dessa fragilidade, vendendo não apenas produtos, mas estilos de vida e identidades prontas. Ao passar o cartão sem planejamento, o indivíduo pode estar tentando, inconscientemente, comprar um tempo que não tem ou um afeto que lhe falta.

Reconhecer que o objeto de consumo é apenas um véu para questões mais profundas é o primeiro passo para uma relação mais saudável com o próprio desejo. Quando entendemos que nenhuma mercadoria é capaz de preencher o vazio subjetivo, a compulsão perde parte de sua força. Afinal, a verdadeira satisfação não está no acúmulo daquilo que o bolso comporta, mas na capacidade de suportar a falta sem precisar escondê-la sob camadas de plástico e boletos.

Se você está lendo este texto, é quase certo que o faz através de uma tela. Talvez entre uma notificação de e-mail e notificações de alguma rede social. E eu quero começar te fazendo uma pergunta: você já sentiu que, por mais que você se conecte, parece que algo essencial está se perdendo no caminho?

Lá em 1930, Freud escreveu uma de suas obras mais famosas, O Mal-Estar na Civilização. Ele dizia, em resumo, que para vivermos em sociedade, precisamos abrir mão de parte de nossos impulsos. Trocamos um pouco de “felicidade” por um pouco de “segurança”. O resultado? Um mal-estar crônico, uma sensação de que a vida em cultura exige demais de nós.

Hoje, quase cem anos depois, o mal-estar mudou de endereço: ele se mudou para o digital. Se antes o peso vinha das regras rígidas da família e do estado, hoje o peso vem de uma nova cobrança: a performance da felicidade.

Nas redes sociais, não basta ser; é preciso parecer. E não é parecer de qualquer jeito, é parecer de forma impecável. Lacan nos falava sobre o “Estágio do Espelho”, aquele momento na infância em que a criança se olha e se encanta com aquela imagem inteira, perfeita, que o espelho devolve. O problema é que o Instagram virou um espelho de 24 horas. Vivemos tentando sustentar uma imagem que, no fundo, não somos nós. É o que chamamos de “Eu Ideal” atropelando o nosso eu real, cheio de falhas, cansaço e dúvidas.

E aí vem o cansaço. Um cansaço que não é só físico, é psíquico. É a exaustão de ter que vender a própria imagem o tempo todo. Sabe aquela sensação de que se você não postou, você não existe? Isso é o simbólico sendo engolido pelo imaginário. A gente para de viver a experiência para poder registrá-la.

O resultado desse “mal-estar digital” a gente vê no consultório todos os dias: ansiedade por comparação, a angústia de estar perdendo algo e, principalmente, uma dificuldade imensa de suportar o silêncio e o vazio. O algoritmo não nos deixa faltar nada, ele nos entrega conteúdo antes mesmo de sentirmos o desejo de buscar. E, como já conversamos por aqui, sem falta, não há desejo. Ficamos empanturrados de informação, mas famintos de sentido.

A psicanálise hoje tem um papel fundamental: nos devolver o direito à imperfeição. No divã, não tem filtro. Não tem edição. É o único lugar onde o cancelamento não existe, porque o que buscamos é justamente aquilo que a cultura digital tenta esconder, a nossa verdade nua e crua, com todos os seus tropeços.

Talvez o segredo para aliviar esse mal-estar não seja desconectar o Wi-Fi, mas reconectar com a nossa própria falta. É aceitar que não precisamos ser curtidos o tempo todo para existirmos.

E você? Como tem lidado com o peso desse espelho digital na sua vida?

Se você já parou para pensar no que acontece na sua cabeça, provavelmente já se viu dividida entre dois mundos. De um lado, aquela ideia de que somos puro sentimento, traumas de infância e desejos escondidos (o bom e velho Freud). Do outro, a ciência nua e crua dizendo que tudo é química, sinapse e que “está tudo no cérebro”. Por muito tempo, parecia que a psicanálise e a neurociência eram aquelas vizinhas que não se bicam e evitam o elevador. Mas, olha, a notícia boa é que elas finalmente começaram a conversar, e esse papo é fascinante!

Muita gente esquece, mas o Freud era neurologista antes de inventar o divã. Ele sempre quis entender a biologia da mente, mas na época dele a tecnologia era basicamente “lupa e boa vontade”. Ele acabou focando na fala, no simbólico e no inconsciente porque não dava para ver os neurônios brilhando em tempo real como fazemos hoje com uma ressonância. Mas o que a gente está descobrindo agora, no século XXI, é que ele não estava louco: a ciência moderna está “dando um joinha” para muita coisa que a psicanálise já dizia.

Sabe aquela história de que a terapia muda a vida? Pois é, ela muda o cérebro também! Existe um conceito lindo chamado neuroplasticidade, que é a capacidade do nosso cérebro de se moldar conforme as nossas experiências. Quando você está lá na análise, desabafando e ressignificando uma memória dolorosa, você não está só “falando”: você está fisicamente criando novos caminhos neurais. É como se você estivesse fazendo uma reforma na fiação da casa enquanto conta a história de quem construiu as paredes.

E o tal do inconsciente? A neurociência hoje prova por A mais B que a maior parte do que a gente faz é no “automático”, sem a gente perceber. A diferença é que a psicanálise mergulha no sentido disso. Enquanto o cientista mapeia qual parte do cérebro acende quando você está triste, o psicanalista te ajuda a entender por que aquela tristeza específica tem o cheiro do perfume da sua avó ou o tom de voz de um antigo chefe.

No fim das contas, a gente não é só um amontoado de células, nem só um personagem de um livro de memórias. Somos os dois.

Ter essa visão mais completa ajuda a gente a tirar um pouco do peso daquelas explicações simplistas de “ah, é só falta de serotonina” ou “é tudo coisa da sua cabeça”. Somos complexos, somos biológicos e somos profundamente subjetivos. E quer saber? É exatamente essa mistura que nos faz tão humanos.

Sabe aquela sensação estranha que aparece logo depois que finalmente alcançamos algo que queríamos muito? Aquele vazio súbito que surge no minuto seguinte ao “consegui”? Se você já sentiu isso, bem-vinda ao clube. Pode parecer ingratidão ou um eterno descontentamento, mas a psicanálise nos explica que esse fenômeno é, na verdade, a prova mais pura da nossa humanidade. Existe uma distância fascinante entre o que a gente deseja e o que a gente conquista, e entender esse intervalo é a chave para não pirar na busca pela felicidade.

Na nossa cabeça, a gente costuma confundir necessidade com desejo. A necessidade é simples, quase biológica: se você tem sede, bebe água e pronto, a tensão acaba. Mas o desejo… ah, o desejo é um bicho bem mais sofisticado. Ele não quer apenas o objeto; ele quer o movimento. Para a psicanálise, o desejo nasce de uma “falta” que todos nós carregamos desde que deixamos de ser bebês e percebemos que não somos o centro do universo. A gente passa o resto da vida tentando tapar esse buraquinho com conquistas, o diploma, o carro novo, o casamento dos sonhos, o cargo de diretoria.

O “problema” (que na verdade é o que nos mantém vivos) é que nenhuma conquista consegue preencher esse vazio por completo. Quando o objeto do nosso desejo está longe, ele brilha, ele parece ter o poder de nos salvar de todas as angústias. Mas, no momento da conquista, esse objeto se torna real, limitado e comum. Ele perde aquela aura mágica porque o desejo, por natureza, é insaciável. Como dizia Lacan, o desejo é sempre “desejo de outra coisa”. Ele não quer chegar ao destino; ele quer continuar viajando.

Por isso, muitas vezes a conquista traz uma pontinha de tristeza ou o imediato pensamento do “e agora?”. Não é que a vitória não tenha valor, é que o desejo já está de malas prontas para a próxima estação antes mesmo de você terminar de comemorar. Entender essa dinâmica nos liberta de uma pressão enorme. A gente para de esperar que a próxima conquista resolva a nossa vida de uma vez por todas e começa a aceitar que somos seres desejantes, movidos por essa busca que nunca termina.

No fim das contas, as conquistas são degraus importantes, marcos da nossa história e do nosso esforço, mas elas nunca serão o ponto final. O segredo da saúde mental talvez não seja alcançar a satisfação plena, que, convenhamos, é uma ilusão de comercial de TV, mas sim aprender a conviver com essa falta que nos empurra para frente. Afinal, não é o que a gente conquista que define quem somos, mas sim o que a gente faz com esse desejo inquieto que nos faz humanos.

Sentar-se diante de uma mulher no consultório é, quase sempre, testemunhar um mal-estar que não cabe em um diagnóstico rápido de ansiedade ou cansaço. Como psicóloga e neuropsicóloga, percebo que, enquanto o cérebro tenta processar uma carga cognitiva exaustiva e gerenciar as infinitas demandas do cotidiano, o inconsciente sussurra uma pergunta que muitas vezes é abafada pela pressa: quem é essa mulher que resta quando as luzes se apagam e as funções sociais silenciam? No café da manhã, entre um e-mail e o cuidado com os filhos, ou no trânsito, enquanto planejamos a próxima meta profissional, a identidade feminina costuma ser construída sobre uma série de “deveres” que aceitamos para sermos amadas e reconhecidas. Somos a filha dedicada, a profissional impecável, a parceira compreensiva e a mãe que tudo provê. Mas a psicanálise nos ensina que essa identidade feita de espelhos e expectativas alheias é, na verdade, uma prisão de imagens ideais.

Quando Freud lançou sua famosa e controversa pergunta sobre o que quer uma mulher, ele talvez estivesse apontando para algo que ainda hoje tentamos tatear na clínica: o fato de que o feminino não é um conceito fechado, uma biologia ou um destino social pré-traçado. O desejo feminino é uma construção singular, muitas vezes soterrada por camadas de exigências culturais que nos dizem como devemos parecer, produzir e sentir. Na escuta analítica, o trabalho não é oferecer mais um manual de empoderamento ou de performance, mas sim oferecer o direito ao vazio, ao não saber e à desconstrução dessas máscaras. É no silêncio do divã que a paciente começa a perceber que muito do que ela chama de “meu jeito” é, na verdade, uma resposta automática a uma demanda externa que ela nunca se autorizou a questionar.

Mudar essa rota gera angústia, e a culpa é uma visita frequente nesse processo de “des-identificação”. Afinal, abrir mão de ser a mulher que dá conta de tudo é um luto necessário para que o sujeito do desejo possa finalmente emergir. A exaustão que vemos hoje em tantas mulheres não é apenas falta de descanso físico; muitas vezes, é o peso insustentável de sustentar uma personagem que não condiz com a verdade do próprio inconsciente. Escutar uma mulher psicanaliticamente é dar lugar ao que foi silenciado para que a norma pudesse existir, validando que a vida real acontece no avesso da imagem perfeita do feed das redes sociais. Neste mês de março, meu convite como profissional e como mulher é que possamos buscar espaços de fala onde a nossa identidade não precise de adjetivos, validações ou performances. Que possamos, simplesmente, sustentar o risco de sermos donas do nosso próprio querer, descobrindo que a nossa maior potência não está em quanto entregamos ao mundo, mas no quanto conseguimos nos apropriar da nossa própria história.