Sabe aquela sensação estranha que aparece logo depois que finalmente alcançamos algo que queríamos muito? Aquele vazio súbito que surge no minuto seguinte ao “consegui”? Se você já sentiu isso, bem-vinda ao clube. Pode parecer ingratidão ou um eterno descontentamento, mas a psicanálise nos explica que esse fenômeno é, na verdade, a prova mais pura da nossa humanidade. Existe uma distância fascinante entre o que a gente deseja e o que a gente conquista, e entender esse intervalo é a chave para não pirar na busca pela felicidade.

Na nossa cabeça, a gente costuma confundir necessidade com desejo. A necessidade é simples, quase biológica: se você tem sede, bebe água e pronto, a tensão acaba. Mas o desejo… ah, o desejo é um bicho bem mais sofisticado. Ele não quer apenas o objeto; ele quer o movimento. Para a psicanálise, o desejo nasce de uma “falta” que todos nós carregamos desde que deixamos de ser bebês e percebemos que não somos o centro do universo. A gente passa o resto da vida tentando tapar esse buraquinho com conquistas, o diploma, o carro novo, o casamento dos sonhos, o cargo de diretoria.

O “problema” (que na verdade é o que nos mantém vivos) é que nenhuma conquista consegue preencher esse vazio por completo. Quando o objeto do nosso desejo está longe, ele brilha, ele parece ter o poder de nos salvar de todas as angústias. Mas, no momento da conquista, esse objeto se torna real, limitado e comum. Ele perde aquela aura mágica porque o desejo, por natureza, é insaciável. Como dizia Lacan, o desejo é sempre “desejo de outra coisa”. Ele não quer chegar ao destino; ele quer continuar viajando.

Por isso, muitas vezes a conquista traz uma pontinha de tristeza ou o imediato pensamento do “e agora?”. Não é que a vitória não tenha valor, é que o desejo já está de malas prontas para a próxima estação antes mesmo de você terminar de comemorar. Entender essa dinâmica nos liberta de uma pressão enorme. A gente para de esperar que a próxima conquista resolva a nossa vida de uma vez por todas e começa a aceitar que somos seres desejantes, movidos por essa busca que nunca termina.

No fim das contas, as conquistas são degraus importantes, marcos da nossa história e do nosso esforço, mas elas nunca serão o ponto final. O segredo da saúde mental talvez não seja alcançar a satisfação plena, que, convenhamos, é uma ilusão de comercial de TV, mas sim aprender a conviver com essa falta que nos empurra para frente. Afinal, não é o que a gente conquista que define quem somos, mas sim o que a gente faz com esse desejo inquieto que nos faz humanos.

Sentar-se diante de uma mulher no consultório é, quase sempre, testemunhar um mal-estar que não cabe em um diagnóstico rápido de ansiedade ou cansaço. Como psicóloga e neuropsicóloga, percebo que, enquanto o cérebro tenta processar uma carga cognitiva exaustiva e gerenciar as infinitas demandas do cotidiano, o inconsciente sussurra uma pergunta que muitas vezes é abafada pela pressa: quem é essa mulher que resta quando as luzes se apagam e as funções sociais silenciam? No café da manhã, entre um e-mail e o cuidado com os filhos, ou no trânsito, enquanto planejamos a próxima meta profissional, a identidade feminina costuma ser construída sobre uma série de “deveres” que aceitamos para sermos amadas e reconhecidas. Somos a filha dedicada, a profissional impecável, a parceira compreensiva e a mãe que tudo provê. Mas a psicanálise nos ensina que essa identidade feita de espelhos e expectativas alheias é, na verdade, uma prisão de imagens ideais.

Quando Freud lançou sua famosa e controversa pergunta sobre o que quer uma mulher, ele talvez estivesse apontando para algo que ainda hoje tentamos tatear na clínica: o fato de que o feminino não é um conceito fechado, uma biologia ou um destino social pré-traçado. O desejo feminino é uma construção singular, muitas vezes soterrada por camadas de exigências culturais que nos dizem como devemos parecer, produzir e sentir. Na escuta analítica, o trabalho não é oferecer mais um manual de empoderamento ou de performance, mas sim oferecer o direito ao vazio, ao não saber e à desconstrução dessas máscaras. É no silêncio do divã que a paciente começa a perceber que muito do que ela chama de “meu jeito” é, na verdade, uma resposta automática a uma demanda externa que ela nunca se autorizou a questionar.

Mudar essa rota gera angústia, e a culpa é uma visita frequente nesse processo de “des-identificação”. Afinal, abrir mão de ser a mulher que dá conta de tudo é um luto necessário para que o sujeito do desejo possa finalmente emergir. A exaustão que vemos hoje em tantas mulheres não é apenas falta de descanso físico; muitas vezes, é o peso insustentável de sustentar uma personagem que não condiz com a verdade do próprio inconsciente. Escutar uma mulher psicanaliticamente é dar lugar ao que foi silenciado para que a norma pudesse existir, validando que a vida real acontece no avesso da imagem perfeita do feed das redes sociais. Neste mês de março, meu convite como profissional e como mulher é que possamos buscar espaços de fala onde a nossa identidade não precise de adjetivos, validações ou performances. Que possamos, simplesmente, sustentar o risco de sermos donas do nosso próprio querer, descobrindo que a nossa maior potência não está em quanto entregamos ao mundo, mas no quanto conseguimos nos apropriar da nossa própria história.

O filme Deixe-me Viver nos coloca diante de uma questão que transborda a tela e invade o consultório: o que acontece com o sujeito que não encontra um lugar no desejo do Outro? Embora a obra siga uma linha espiritualista, a mensagem central toca em uma ferida puramente psicanalítica, a importância de ser “antecedido” por uma narrativa de amor e acolhimento.

Para a psicanálise, o nascimento biológico é apenas o início de uma longa jornada de humanização. Antes mesmo de respirarmos, já somos falados, sonhados ou, em casos de dor, rejeitados pelos nossos pais. Esse “lugar” que ocupamos no psiquismo de quem nos cuida é o que Freud chamava de solo para o desenvolvimento. O filme, ao narrar a luta de espíritos que buscam o direito de encarnar, nos faz pensar naqueles pacientes que, mesmo adultos, carregam a sensação de que estão “pedindo licença” para existir.

A angústia do desamparo é o pano de fundo aqui. Quando uma vida é interrompida ou negada, seja no ato real ou no abandono simbólico, cria-se um buraco na trama geracional. No filme, vemos o esforço para reparar esses laços; no divã, vemos o esforço do sujeito para se autorizar a viver, apesar das marcas da não aceitação. É o que Lacan nos lembra sobre a importância de sermos desejados: a vida só se sustenta se houver um Outro que nos reconheça como alguém singular, e não apenas como um objeto ou um fardo.

O título Deixe-me Viver soa como o apelo de muitos que chegam à análise. Não é apenas um pedido para sobreviver, mas para habitar um corpo e uma história com dignidade. É o desejo de transformar o “destino” de uma rejeição precoce em uma possibilidade de escolha. Como profissionais da escuta, nosso papel assemelha-se ao trabalho de resgate proposto na obra: oferecer um espaço onde o sujeito possa, finalmente, ser “adotado” por si mesmo, construindo um direito de existir que não dependa mais de permissões externas, mas da sua própria verdade ética.

No fim, falar sobre o direito de viver é falar sobre a responsabilidade que temos uns com os outros. Seja na espiritualidade ou na clínica, a cura passa necessariamente pelo reconhecimento de que toda existência precisa de um porto, e que a palavra é o único caminho para transformar o desamparo em vida.

Ultimamente, o silêncio do meu consultório tem sido preenchido por um tipo de angústia que parece ter a mesma raiz, embora se manifeste de formas opostas. De um lado, recebo pessoas que chegam fragmentadas, com uma dificuldade quase paralisante de se olharem com o mínimo de benevolência, sem saber ao certo o que desejam ou para onde apontam suas bússolas internas. É um deserto de si, onde o “não sei o que quero” esconde, na verdade, um medo profundo de não ser o bastante para o próprio desejo. De outro, vejo o amor ser convocado como uma ferramenta de gestão, quase uma planilha de controle, onde o outro não é um par, mas um objeto que precisa se moldar perfeitamente às expectativas de quem ama. Nessas histórias, o afeto vira posse e a vulnerabilidade do parceiro é lida como uma falha no sistema que precisa ser corrigida.

O que une esses dois extremos é a dificuldade de lidar com a alteridade, com aquilo que o outro tem de incontrolável e que nós mesmos temos de faltante. Vivemos o tempo do descarte não apenas porque jogamos relações fora com facilidade, mas porque descartamos a subjetividade em prol de um ideal narcísico. Freud nos ensinou que o narcisismo é uma proteção, uma espécie de armadura que nos impede de sentir a dor da nossa própria incompletude. Quando não sabemos o que queremos, muitas vezes é porque estamos esperando que o mundo nos dê uma resposta pronta, um manual de instruções que nos poupe da angústia da escolha. E quando tentamos controlar o outro sob a máscara do amor, estamos, no fundo, tentando calar a incerteza que a presença de um sujeito livre nos causa. Lacan dizia que amar é dar o que não se tem, mas no tempo do consumo, queremos dar o que temos em excesso, controle, cobrança, regras, ou pedir o que o outro não pode nos oferecer, a cura para o nosso próprio vazio.

O amor que sobrevive a essa lógica do descarte é aquele que suporta o desamparo. É o amor que entende que o outro nunca será a peça que falta no nosso quebra-cabeça, mas alguém que caminha ao lado enquanto ambos tentam entender seus próprios furos. Percebo na minha prática que a cura não vem de encontrar o parceiro ideal ou de se tornar “perfeito” para si mesmo, mas de conseguir sustentar o olhar diante do espelho e do outro sem o desejo de aniquilar o que é diferente. O amor real começa justamente quando o controle falha e a gente se permite não saber tudo. Talvez o grande ato de coragem hoje seja aceitar a nossa própria imperfeição para que, enfim, possamos dar lugar ao encontro verdadeiro, aquele que não cabe em uma caixa e que não se joga fora na primeira frustração. Afinal, se o amor é o que nos humaniza, o descarte é o que nos apaga.

A abertura do Super Bowl LX não foi apenas um espetáculo de luzes e ritmos latinos; foi um manifesto político e subjetivo que ecoará por muito tempo na nossa percepção de cultura e saúde mental. Quando Bad Bunny subiu ao palco e bradou que “Juntos somos América”, ele não estava apenas corrigindo um erro geográfico comum, mas realizando um movimento profundo de afirmação da identidade frente ao que a psicanálise chama de “Grande Outro”. Esse Grande Outro representa a ordem social, as leis e as expectativas que nos rodeiam e que, para a comunidade latina nos Estados Unidos, frequentemente tenta silenciar sua língua e apagar sua história sob o pretexto de uma integração que, na verdade, é anulação.

A performance de Bad Bunny (com bandeiras de todo o continente e críticas diretas às políticas de imigração e ao sistema estabelecido) foi um ato de resistência psíquica em estado puro. Ao se recusar a performar o papel do “latino idealizado”, aquele que apenas entretém sem incomodar, ele reivindicou o direito de existir em sua totalidade, peitando a elite e mostrando que a saúde mental de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de narrar sua própria história com as suas próprias palavras. Sob a ótica da neuropsicologia, sabemos que o sentimento de não-pertencimento e o preconceito sistemático geram um estado de alerta constante e estresse tóxico, o que afeta diretamente a regulação emocional e a autoestima, criando uma espécie de trauma crônico.

Quando um artista desse porte ocupa o maior palco do mundo para dar voz aos marginalizados, ele oferece uma ferramenta de reparação simbólica. Ele transforma a dor da exclusão em orgulho coletivo, permitindo que o sujeito saia da posição de objeto — aquele que é olhado e julgado — para a posição de autor da sua própria vida. A frase “Somos todos América” é, portanto, um convite para abandonarmos a “colonização psíquica” que sofremos diariamente quando tentamos nos encaixar em moldes alheios para sermos aceitos. No fim, a verdadeira liberdade e a saúde mental florescem quando paramos de pedir permissão para ser quem somos e passamos a ocupar nossos espaços com a dignidade de quem conhece o valor de suas raízes.

Às vezes, quando o dia termina e o silêncio finalmente se instala, sinto que ele não chega como uma ausência de som, mas como uma presença quase física. Para muitos de nós, esse momento é assustador. Corremos para o celular ou ligamos qualquer ruído de fundo porque o silêncio, na nossa cultura do desempenho, soa como solidão. Mas, na minha prática e nas minhas leituras, aprendi a olhar para esse vazio de outra forma, especialmente através das lentes sensíveis de Winnicott.

Winnicott nos presenteou com um conceito belíssimo: a capacidade de estar só. Para ele, essa não é uma habilidade que nasce conosco, mas uma conquista do desenvolvimento que começa lá atrás, no colo. É aquela cena comum de um bebê brincando calmamente enquanto a mãe ou o cuidador lê um livro ao lado. O bebê está só, mas está só na presença de alguém. Esse “alguém” garante um ambiente seguro, um holding que permite que a criança não precise se defender do mundo, apenas existir.

Transportando isso para a nossa vida adulta e para o meu trabalho no consultório, percebo que perdemos essa segurança. O mundo barulhento de hoje parece um ambiente “invasivo”, que exige que estejamos o tempo todo reagindo a estímulos. Quando não há barulho, sentimos que o suporte sumiu. O medo do silêncio, no fundo, é o medo de que, se pararmos de produzir ruído, deixaremos de existir ou seremos invadidos por angústias antigas.

Na análise, o meu silêncio enquanto profissional tenta resgatar esse ambiente suficientemente bom. Não é um silêncio de indiferença, mas um silêncio de companhia. É como se eu dissesse: “Pode parar de falar um pouco. Pode apenas ser. Eu estou aqui sustentando o espaço para você”. É nesse intervalo, quando a pessoa para de tentar me explicar o mundo e começa a sentir a própria existência, que algo autêntico acontece.

Winnicott dizia que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo“. E, para mim, o silêncio é o quintal onde essa brincadeira do pensamento acontece. Sem a pausa, a vida vira uma sucessão de reações automáticas, o que ele chamava de “Falso Self”. Já no silêncio protegido, o nosso “Verdadeiro Self” pode finalmente colocar o nariz para fora e respirar.

Por isso, o convite que faço hoje é o de não temer esses minutos de mudez. Que possamos redescobrir o silêncio não como um abismo de solidão, mas como um espaço de repouso e criação. Porque as vezes, a maior conversa da nossa vida acontece justamente quando as palavras decidem descansar.