Cansaço de fim de ano não é preguiça

Você também tem percebido que as pessoas estão vivendo só pelas férias? Chega dezembro e, junto com as luzinhas e as retrospectivas, vem aquele peso no corpo e na cabeça: a energia some, a paciência encurta, e a vontade é só de ficar quieta. Parece mesmo que o ano inteiro resolve sentar nos nossos ombros de uma vez. É ou não é?

E é nesse momento que muita gente se cobra, como se fosse preguiça, como se estivesse “mole” ou “fraca”. Só que cansaço de fim de ano não é preguiça. Preguiça até pode existir, claro, mas o que aparece nessa época costuma ser outra coisa: um organismo inteiro pedindo freio depois de meses funcionando sem parar, segurando prazos, problemas, relações, demandas e emoções que não couberam no dia a dia. Quando você não consegue parar por fora, o corpo tenta parar por dentro. E ele fala do jeito dele: sono demais ou insônia, irritação, esquecimento, vontade de sumir um pouco, choro “sem motivo”, aquela sensação de que tudo ficou mais pesado do que deveria e, infelizmente o peso não é do saco do papai noel rs.

Pela lente da psicanálise, esse cansaço não é só físico, ele é também simbólico. O fim do ano tem cara de fechamento, de balanço, e como diria a nossa querida Simone todo natal “e aí, o que você fez?”. E é justamente aí que entra um personagem conhecido: a voz interna que cobra, compara, dá nota, exige desempenho como se a vida fosse uma prova interminável. Você está cansada e, em vez de descansar, se julga. E essa culpa também esgota. É como se você trabalhasse em dois turnos: um no mundo e outro no tribunal interno, tentando ser suficiente, tentando corresponder, tentando provar valor. Além disso, dezembro mexe com pequenos e grandes lutos, mesmo quando o ano foi bom: o que não aconteceu, o que você perdeu, o que não virou, o que você precisou engolir, as relações que mudaram, o tempo que passou. Luto cansa. E o problema é que a gente tenta pular essa parte porque “tem que comemorar”, como se alegria fosse obrigação e gratidão fosse um uniforme. Só que a mente não funciona por calendário. Dá para estar feliz por uma coisa e triste por outra no mesmo dia, e isso não é drama: é humano.

Talvez, então, a pergunta não seja “por que estou assim?”, mas “do que eu estou precisando?”. Em vez de se chamar de preguiçosa, experimente nomear com honestidade: “eu estou cansada”. Sem xingar, sem justificar. Tente um fechamento de ano mais humano e menos performático, menos lista de metas e mais escuta: o que eu carreguei demais? o que eu aguentei calada? o que eu preciso deixar para trás para voltar a respirar? E, principalmente, dê ao descanso o lugar que ele sempre teve, antes dessa moda de produtividade 24/7: descanso não é luxo, é manutenção. Às vezes, descansar vai ser dormir. Outras vezes, vai ser diminuir estímulos, reduzir compromissos, ficar em silêncio, dizer “não” sem culpa, permitir um “não fazer nada” sem se punir depois. O seu cansaço pode estar dizendo uma verdade simples: você não é máquina. E isso, por mais óbvio que pareça, é exatamente o tipo de coisa que a gente precisa se lembrar quando o ano termina e a conta emocional chega.