Réveillon e as promessas do Eu ideal

Tem uma cena que se repete todo 31 de dezembro: a gente olhando pro relógio como se ele fosse um padre prestes a abençoar a vida nova. Aí dá meia-noite e, junto com os fogos e o brinde, nasce ele: o Eu ideal. Bem arrumado, disciplinado, zen, produtivo, hidratado, com a vida afetiva resolvida e a conta bancária alinhada com a planilha. Nasce o “Eu” que finalmente vai dar certo.

Não que eu ache que desejar mudança seja errado. É humano. Só penso que o Réveillon tem um jeitinho meio cruel de transformar desejo em contrato. Como se a virada do ano fosse uma assinatura: “a partir de agora, eu prometo ser outro”. E aí entra a psicanálise com aquela sinceridade que às vezes dá vontade de revirar os olhos: não existe virar outra pessoa do dia pra noite. Existe história, repetição, defesa, conflito, desejo e, principalmente, inconsciente. A gente não é uma lista de metas com pernas.

Na clínica (e na vida), dá pra ver que as promessas de ano novo muitas vezes são menos sobre esperança e mais sobre cobrança. Um “agora vai” que carrega um “até que enfim” e um “já passou da hora”. E é aqui que o Eu ideal começa a virar armadilha. Porque o eu ideal não é só uma versão melhorzinha de nós. Ele costuma ser uma versão perfeita e, portanto, impossível. E quando a régua é impossível, adivinha o resultado? Culpa, frustração e aquele sentimento de “eu nunca consigo”.

O Eu ideal é sedutor porque ele promete alívio. “Se eu emagrecer / se eu tiver rotina / se eu parar de procrastinar / se eu for mais firme / se eu me controlar… aí eu vou me sentir bem e serei uma pessoa melhor.” Só que, muitas vezes, isso vira uma troca injusta: eu te dou amor-próprio quando você merecer. E a psicanálise cutuca exatamente aí: por que o amor precisa ser merecido? Quem foi que ensinou que só dá pra se acolher depois de performar? Quem foi que colocou esse juiz dentro da nossa cabeça?

Freud falava do superego, essa instância que pode virar um fiscal interno, cobrando pureza, retidão, desempenho. E tem gente que vive o Réveillon como uma audiência: “ano novo, sentença nova”. Só que o superego não quer só melhora. Ele quer submissão. Ele quer que você prove, que você pague, que você compense. E quando a gente escreve promessas a partir desse lugar, elas já nascem com gosto de castigo. “Vou acordar 5h.” “Nunca mais vou errar.” “Agora eu vou dar conta de tudo.” Isso não é meta, é chicote.

Além disso, a virada do ano mexe também com o luto. Luto do que não aconteceu, do que não virou, do que não foi. A gente faz retrospectiva e encontra versões nossas que falharam, que desistiram, que ficaram pelo caminho. E o Eu ideal aparece como uma tentativa de reparar essa dor com pressa, se esquecendo que dor não se resolve com pressa, se elabora. E elaborar dá trabalho, dá tempo, dá conversa interna, dá olhar pro que foi e aceitar o que não foi. E tudo isso sem fantasia de reinício mágico.

Preciso dizer novamente que, o problema não são as promessas. O problema é quando essas promessas vêm com um “eu só presto se…”. Porque aí você não está construindo um caminho; está tentando apagar uma parte de si. E ninguém apaga a própria história sem pagar um preço alto. O inconsciente não some porque a gente fez uma lista bonita na noite de Réveillon. A repetição também não. Às vezes, a repetição é justamente o jeito que o psiquismo encontrou de dizer: “tem algo aqui que você ainda não quis ouvir”.

Então talvez a pergunta mais honesta para hoje seja “o que eu estou tentando provar?”. Pra quem estou tentando provar? Pra mim? Pro meu pai interno? Pra minha mãe interna? Pro mundo? Pra alguém que eu nem convive mais, mas ainda manda dentro de mim? E além disso, também se perguntar “o que eu não estou me permitindo sentir?”. Porque muita promessa nasce como tentativa de calar ansiedade, de controlar medo, de dar nome ao caos. E eu entendo, só que controle demais vira prisão.

Então hoje eu quero te convidar a vir junto comigo e tentarmos fazer acontecer uma proposta mais realista. Que tal pensarmos em promessas ou metas mais realistas? Pensar em promessas/metas pequenas, com corpo, com vida, com falha prevista. Promessa que cabe numa terça-feira. Promessa que não exige que você seja um robô. Algo como: “vou me tratar com mais respeito quando eu não der conta”. “Vou parar de usar a culpa como combustível.” “Vou pedir ajuda antes de afundar.” “Vou sustentar um compromisso por vez.” Isso não garante foto bonita, mas garante um chão, e no chão conseguimos caminhar.

Porque no fim, o Réveillon é simbólico. E símbolo pode ser bonito quando não vira algo que oprime. Você pode brindar o novo sem cuspir no antigo. Pode desejar mudança sem se odiar pelo que ainda não mudou. Pode começar o ano sem se prometer uma perfeição que você nunca exigiria de alguém que você ama.

Então, se hoje pensarmos em fazer promessas, que seja com verdade. Com limite. Com humanidade. E, por favor, sem esse teatrinho de “agora eu renasci”. Você não precisa renascer. Você só precisa continuar… Porque a virada real não é no relógio. É quando você para de se tratar como projeto de conserto e começa a se tratar como alguém que está em processo.

Com amor,