Brincar é uma das atividades mais genuínas e essenciais da experiência humana, mas, ironicamente, costuma ser subestimada sob o rótulo de mera distração ou passatempo infantil. Aqui no consultório, é comum ouvir dos pais o relato: “eu perguntei como foi a sessão e ela disse que só brincou”.

O que acontece é que na perspectiva de Winnicott, um dos psicanalistas mais sensíveis à realidade do desenvolvimento humano, não é só um brincar é o lugar onde a vida ganha sentido. Por isso, dizer que “brincar é coisa séria” não é apenas um jogo de palavras, mas a constatação de que é nesse espaço criativo que o sujeito se constitui, experimenta o mundo e, inevitavelmente, deixa transparecer as tramas do seu inconsciente.

Para Winnicott, o brincar se desenrola naquilo que ele chamou de espaço potencial, uma zona intermediária entre a realidade interna do indivíduo e a realidade externa do mundo compartilhado. Quando uma criança (ou um adulto, em sua capacidade lúdica) se engaja em uma brincadeira, ela não está apenas manipulando objetos ou seguindo regras, ela está em um estado de entrega que permite a emergência de quem ela realmente é. É nesse terreno fértil que o inconsciente encontra uma via de expressão segura e organizada. Enquanto o sintoma, muitas vezes, é uma expressão rígida e repetitiva de um conflito, o brincar oferece a maleabilidade necessária para que os desejos, medos e fantasias sejam dramatizados, processados e, finalmente, integrados.

É fundamental compreender que o jogo funciona como um espelho da psique. Ao escolher um brinquedo, ao dar um tom de voz a um personagem ou ao criar um cenário imaginário, o sujeito não está operando no vazio. Ele está, sem perceber, projetando fragmentos de sua própria história e de suas angústias mais profundas. A psicanálise nos ensina que o inconsciente não é um lugar estático, mas algo que busca ser revelado. No brincar, essa revelação acontece através da ação. É a oportunidade de encenar o indizível, de dar forma ao que, até então, permanecia apenas como um eco sombrio ou uma pulsão sem destino.

Portanto, quando olhamos para o brincar com a lente Winnicottiana, percebemos que não se trata apenas de diversão, mas de uma ferramenta vital de saúde mental. O brincar é o alicerce da criatividade e da capacidade de se sentir real no mundo. Se o jogo é a linguagem pela qual o sujeito se comunica consigo mesmo e com o ambiente, ele é, simultaneamente, o caminho mais direto para o autoconhecimento. Valorizar o lúdico não é um retorno à infância, mas um reconhecimento de que, em qualquer idade, o brincar é o trabalho mais sério que podemos realizar para sustentar a nossa humanidade.

No dia 18 de maio, celebramos o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, uma data que nos convida a refletir sobre a forma como a sociedade lida com o sofrimento mental extremo. Historicamente, a resposta automática diante daquilo que foge à norma ou que causa estranheza foi o isolamento, trancar, silenciar e afastar dos olhos públicos. Mas por que a psicanálise caminha exatamente na direção oposta? Por que, em vez das trancas e dos muros, ela aposta tão piamente na palavra?

Para entender essa escolha, precisamos voltar ao nascimento da própria psicanálise. Ela surge no final do século XIX, quando Sigmund Freud dá ouvidos a pacientes que a medicina da época ignorava ou tratava com métodos invasivos e isolamento. Uma dessas pacientes apelidou o método de talking cure (a cura pela fala). Desde então, o divã se tornou um espaço onde o sujeito tem permissão para dizer o indizível.

A psicanálise entende que o sofrimento mental não é um defeito mecânico a ser isolado ou um comportamento que precisa ser corrigido à força por meio do confinamento. Pelo contrário: o sintoma, por mais doloroso ou desorganizado que pareça, é uma tentativa de comunicação. É a única forma que a pessoa encontrou, naquele momento, de expressar uma dor que ainda não cabe em palavras organizadas.

Quando isolamos alguém em sofrimento, estamos cortando o seu laço com o mundo e validando a ideia de que aquela dor não tem direito à existência. O isolamento manicomial opera sob a lógica da exclusão: “se eu não entendo o que você diz, prefiro não ouvir”. Já a psicanálise opera sob a lógica da acolhida e da tradução. Ao oferecer a palavra, o analista convida o sujeito a transformar o grito em discurso, o delírio em narrativa, e o isolamento em laço social.

Na prática clínica e nas instituições que se alinham à reforma psiquiátrica, apostar na palavra significa devolver a dignidade e a autoria da própria vida ao sujeito. Significa escutar a loucura e o sofrimento não como um perigo a ser contido, mas como uma verdade singular que precisa de espaço para ser dita. Falar liberta porque permite que a pessoa se aproprie da sua história, encontre novos sentidos para o que vive e, acima de tudo, sinta-se humana e pertencente ao mundo. É por isso que, contra qualquer muro que tente calar o sofrimento, a psicanálise sempre responderá com a escuta e o direito à fala.

Essa semana estava com uma paciente no consultório e ela falava sobre a ansiedade extrema que está sentindo ao tentar voltar a estudar. Em análise ela se lembrou do racismo que sofrera na infância, quando ainda tinha 6 anos, até conseguir lidar na adolescência e passar pelo ensino médio. Ela conseguiu perceber que a sensação que sente hoje ao tentar enfrentar uma sala de aula é a mesma que ela sentia ao ir para a escola todos os dias. Esse relato nos mostra como o trauma social, longe de ser um conceito abstrato, se entranha na carne e se manifesta como um sintoma individual paralisante. O medo que ela sente agora não é apenas uma “ansiedade de desempenho” comum, é o eco de um fantasma histórico que insiste em dizer que aquele lugar não lhe pertence, reativando uma ferida aberta muito antes de ela saber o que era o mundo.

Quando olhamos para a clínica, percebemos que o divã nunca está isolado da história do país. O fantasma da escravidão e do racismo estrutural opera silenciosamente, transformando humilhações coletivas em angústias privadas. O que essa paciente vive é a atualização de uma memória traumática que atravessa gerações: a escola, que deveria ser um lugar de expansão, foi para ela um campo de batalha pela dignidade. Assim, o sintoma, a ansiedade de voltar a estudar, funciona como uma defesa contra a reedição daquela dor original. É como se o inconsciente estivesse tentando protegê-la de um cenário onde, em sua memória mais profunda, o saber e o crescimento foram condicionados ao sofrimento e à exclusão.

Nesse sentido, o trabalho da análise é ajudar o sujeito a separar o que é o seu desejo daquilo que foi projetado sobre ele por uma estrutura violenta. Não se trata apenas de tratar uma “fobia escolar”, mas de dar voz a essa criança de 6 anos que ainda habita a mulher adulta, legitimando sua dor para que ela possa, finalmente, ser elaborada. Quando conseguimos nomear o trauma social dentro da clínica, desatamos os nós que prendem o sujeito a um passado que não é só dele, mas de todo um sistema. Ao reconhecer que esse fantasma existe, abrimos caminho para que a sala de aula deixe de ser um lugar de ameaça e passe a ser, enfim, um espaço de conquista e de autoria da própria história.

A maternidade tem esse jeito curioso de nos colocar entre a cruz e a espada: de um lado, o outdoor reluzente da “mãe ideal”, aquela que nunca perde a paciência, antecipa todas as necessidades e parece viver em um estado de gratidão perpétua (e sem olheiras). Do outro, a gente, na cozinha, lidando com o café frio, o choro que não cessa e a exaustão que bate à porta antes mesmo do almoço.

Winnicott, com uma sensibilidade que poucos teóricos tiveram, nos deu o maior presente que uma mãe poderia receber: o conceito da mãe suficientemente boa. Ele entendeu que o que uma criança realmente precisa não é de uma perfeição paralisante, mas de uma mãe real. Aquela que falha, que se atrasa, que às vezes não entende de primeira o que o filho quer e vai se adaptando àquele novo ser que chegou sem manual algum.

O problema é que, entre a teoria e a prática, existe um abismo chamado cobrança. Nós nos comparamos com o recorte perfeito da vizinha ou com a tela impecável da rede social, esquecendo que o bastidor de ninguém é feito só de luzes. Essa pressão social de que precisamos “dar conta de tudo” acaba se tornando uma pressão interna devastadora. A culpa vira uma sombra que nos persegue a cada escolha, a cada minuto de descanso ou a cada vez que a nossa humanidade grita mais alto que o nosso papel materno.

Precisamos entender que essa voz que nos julga, muitas vezes, nem é nossa; é o eco de uma sociedade que romantiza o sacrifício extremo. Para cuidar daquele bebê tão indefeso que nos foi confiado, precisamos, antes de tudo, olhar para as nossas próprias feridas. Curar a mulher que fomos para deixar florescer a mãe que conseguimos ser. Afinal, uma mãe sobrecarregada e mergulhada na culpa tem dificuldade de oferecer o que há de mais precioso: a presença autêntica.

A mãe ideal é um fantasma que só serve para nos trazer angústia. Já a mãe real é a que sustenta o holding, que oferece o colo possível e que, mesmo cansada, garante que o ambiente seja seguro o bastante para o filho crescer. É aquela que não desiste, por mais difícil que esteja. E é na nossa imperfeição, e na aceitação dela, que abrimos espaço para a autonomia deles e para a nossa própria sanidade.

Portanto, que a gente aprenda a baixar o volume das expectativas externas para ouvir o ritmo do nosso próprio coração e das necessidades reais do nosso filho. Entre a teoria dos livros e o caos da rotina, que a gente possa se abraçar mais e se perdoar diariamente. Olhar para aquele serzinho e entender que ele não precisa de uma heroína intocável, mas de alguém que segure a sua mão enquanto também aprende a caminhar nessa nova identidade. Porque, no fim das contas, ser “suficientemente boa” com toda a nossa verdade e nossas tentativas já é extraordinário demais.

Já sentiu que o calendário, de repente, se transformou em um labirinto elástico? Existem meses que passam como um sopro, mas outros parecem estacionar em uma terça-feira cinzenta que dura semanas. No papel, os meses intercalam entre trinta e trinta e um dias, mas a nossa percepção cronológica raramente concorda com o relógio de parede. Para a psicanálise, essa distorção não é um erro de cálculo, mas uma pista valiosa sobre o que está acontecendo no nosso tempo interno.

A verdade é que nós não vivemos no tempo do relógio, mas sim no tempo do desejo e da angústia. Quando um mês parece não ter fim, geralmente é porque estamos operando sob o peso da repetição. Freud nos apresentou o conceito de “compulsão à repetição”, aquela tendência quase magnética de reviver situações, sentimentos ou impasses, repetindo o ciclo. Quando estamos presos em um padrão emocional que não conseguimos elaborar, o tempo para. O dia se torna um eco do anterior, e a sensação de “não saída” faz com que o mês se arraste, transformando trinta dias em uma eternidade subjetiva.

Além disso, a espera desempenha um papel fundamental nisso tudo. Quando depositamos nossa expectativa em um evento futuro (o fim de um projeto, o dia do pagamento ou o término de um período difícil) , o presente se esvazia de sentido. O agora passa a ser apenas um obstáculo entre nós e o que desejamos. Sob a ótica psicanalítica, essa falta que tentamos desesperadamente preencher faz com que cada minuto seja sentido com uma intensidade desconfortável. O tempo só corre quando estamos investidos na vida, quando estamos apenas suportando o peso do real, ele se torna denso e interminável.

Portanto, se você sente que o mês atual se recusa a entregar o bastão para o próximo, talvez a pergunta não seja “por que o tempo não passa?”, mas sim: “o que em mim está parado?”. Muitas vezes, o mês que não termina é um convite do inconsciente para olharmos para aquilo que estamos tentando evitar ou para a angústia que ainda não nomeamos. Afinal, o tempo psíquico é o único lugar onde um segundo pode durar uma vida inteira, e um mês pode se tornar o cenário de um infinito particular.

Sinto que trocaram os contos de fadas pelo algoritmo, e essa mudança de suporte não é meramente tecnológica, mas sim uma alteração drástica na arquitetura do desenvolvimento infantil. Sob a ótica de Winnicott, a infância se sustenta na capacidade de habitar o espaço potencial, aquela área intermediária entre a realidade interna e o mundo externo onde o brincar acontece. Quando uma criança ouve um conto de fadas, ela é convocada a um esforço criativo: a floresta, o lobo e o herói não estão ali fisicamente, o que obriga o psiquismo a projetar suas próprias cores, medos e desejos naquelas lacunas narrativas. Nesse processo, a criança exerce o que Winnicott chamava de viver criativo, transformando o mundo em algo que faz sentido para ela.

O algoritmo, por outro lado, opera na lógica da saturação. Ao contrário do livro ou da narrativa oral, que oferecem pausas e silêncios para a elaboração interna, o fluxo incessante de vídeos curtos e estímulos visuais prontos invade o aparelho psíquico sem pedir licença. O que a criança perde quando para de fantasiar em favor do consumo digital é, primordialmente, a capacidade de simbolizar. Se a imagem já vem mastigada, saturada e em movimento, não sobra espaço para a “apercepção”. A criança deixa de ser a autora da sua brincadeira para se tornar um receptáculo passivo de uma realidade que não foi por ela sonhado ou imaginado.

O risco desse cenário é o empobrecimento da subjetividade. Para Winnicott, o brincar é a prova de que estamos vivos e que o mundo pode ser sentido como real. Quando o algoritmo preenche todos os vazios, ele aniquila o tédio, que é justamente o solo fértil de onde brota o gesto espontâneo. Sem o exercício da fantasia, a criança pode se tornar excessivamente adaptada ao mundo externo, desenvolvendo um “falso self” que reage aos estímulos mas não inicia o movimento em direção à vida.

Precisamos então, resgatar o conto de fadas e o brincar desestruturado, pois é ele que garante que a criança não perca o contato com sua própria capacidade de criar o mundo enquanto o descobre.