Confesso que, hoje, quando saio de casa e percebo que esqueci o celular, sinto como se estivesse faltando uma parte de mim. Quando a bateria acaba, também surge uma certa preocupação, como se, a qualquer momento, eu fosse precisar muito dele e ele simplesmente estivesse me deixando na mão.

As vezes também pego o celular sem saber exatamente o que estava procurando? Abro o Instagram, passo alguns minutos vendo stories, respondo uma mensagem, confiro uma notificação e, quando percebo, horas se passaram e estou correndo novamente.

É interessante porque não aconteceu nada de extraordinário. Ninguém precisava de mim naquele momento. Mas, ainda assim, parece difícil simplesmente ficar ali. Em silêncio. Sem fazer nada. Ou fazendo as milhares de tarefas que preciso no dia.

Penso que, talvez a pergunta não seja apenas por que estamos tão conectados, mas o que sentimos quando não estamos.

Vivemos em uma época em que estar disponível parece ter se tornado quase uma obrigação. Esperamos respostas rápidas, queremos saber o que os outros estão fazendo, acompanhamos notícias, opiniões, acontecimentos e vidas de pessoas que, muitas vezes, sequer conhecemos. O celular está sempre por perto. E, quando não há nenhuma notificação, podemos sentir vontade de verificar se alguma coisa aconteceu.

É curioso, temos acesso a mais informação, mais pessoas e mais possibilidades de comunicação do que qualquer geração anterior. Mas isso não significa, necessariamente, que estamos mais próximos. Às vezes, estar conectado o tempo inteiro pode ser justamente uma maneira de não entrar em contato com aquilo que acontece dentro de nós.

Por isso hoje quero te convidar a olhar para aquilo que não aparece de imediato.

Por trás do hábito de pegar o celular a cada poucos minutos pode existir simplesmente costume, mas também podem existir outras coisas: ansiedade, tédio, solidão, necessidade de reconhecimento, dificuldade de sustentar a espera ou até mesmo uma tentativa de evitar pensamentos e sentimentos desconfortáveis.

Porque, quando a tela se apaga, alguma coisa pode aparecer. Um pensamento que estávamos evitando. Uma preocupação. Uma sensação de vazio. Uma tristeza. Uma pergunta para a qual ainda não temos resposta.

O problema é que, em uma cultura que nos oferece estímulos o tempo inteiro, quase não precisamos mais esperar. Antes que o desconforto se torne consciente, já podemos abrir um aplicativo, assistir a um vídeo, pular um comercial indesejado, responder alguém ou simplesmente rolar a tela. E assim seguimos: ocupados, distraídos e conectados o tempo todo.

Não significa que o celular seja o vilão da história. A tecnologia faz parte da nossa vida e trouxe possibilidades importantes de comunicação, trabalho e acesso à informação. A questão é outra: o que fazemos com essa conexão quando ela deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade?

Existe uma diferença entre querer conversar com alguém e não conseguir ficar sozinho. Entre usar as redes sociais para se divertir e precisar delas para não sentir tédio. Entre gostar de receber mensagens e sentir angústia quando ninguém procura por você. Entre estar disponível e sentir que precisa estar disponível o tempo inteiro.

Talvez seja justamente aí que precisamos prestar atenção.

Existe algo que essa época parece ter dificuldade de suportar: esperar. Esperar uma resposta, uma ligação, alguém chegar, a sua vez na fila, uma notícia. A espera pode provocar ansiedade porque nos coloca diante de algo que não controlamos. E o celular oferece uma espécie de resposta imediata para esse desconforto.

Mas nem todo vazio precisa ser preenchido. Nem todo silêncio precisa ser interrompido. Nem toda espera precisa ser ocupada.

Na experiência psicanalítica, existe espaço para aquilo que ainda não pode ser imediatamente explicado. Para o silêncio, para a dúvida, para aquilo que surge quando paramos de tentar preencher cada minuto. Talvez estejamos precisando reaprender a ficar um pouco com nós mesmos.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja quanto tempo você passa no celular, mas o que você sente quando não pode estar. E já te adianto que a resposta pode te dizer muito.

Porque talvez o que procuramos na tela não seja apenas informação, entretenimento ou companhia. Talvez, em alguns momentos, estejamos procurando uma maneira de não ficar sozinhos com aquilo que sentimos.

E isso não é uma acusação. É uma possibilidade de reflexão.

Todos nós encontramos maneiras de lidar com aquilo que nos incomoda. Algumas são mais conscientes; outras, nem tanto. O convite não é abandonar o celular, desaparecer das redes ou romantizar uma vida sem tecnologia. É recuperar a possibilidade de escolher: escolher quando se conectar, escolher quando se desconectar e, principalmente, perceber o que acontece dentro de nós quando não há mais nada para nos distrair.

Porque talvez a questão nunca tenha sido simplesmente estar conectado demais ao mundo, mas descobrir se, no meio de tantas conexões, ainda conseguimos estar em contato com nós mesmos.

Vivemos em uma época que parece tratar o envelhecimento como um erro a ser corrigido. Harmonização facial. Bioestimuladores de colágeno. Botox preventivo. Nunca se investiu tanto em procedimentos estéticos na tentativa de retardar o envelhecimento. Alguns são simples, outros envolvem riscos importantes, mas todos parecem responder ao mesmo desejo: desafiar a passagem do tempo e preservar uma juventude que, inevitavelmente, escapa.

A mensagem é repetida diariamente, de diferentes formas: permanecer jovem significa continuar bonito, desejável, produtivo e admirado. Como se o valor de uma pessoa diminuísse à medida que os anos passam. Mas o que acontece quando o espelho começa a contar uma história diferente daquela que a sociedade espera?

Envelhecer não é apenas um processo biológico. É também um processo psíquico. A cada fase da vida somos convidados a elaborar perdas, abrir mão de algumas versões de nós mesmos e construir outras. Perdemos a pele da infância, a impulsividade da adolescência, a força física da juventude e, aos poucos, somos confrontados com a finitude. A psicanálise nos ensina que viver implica suportar perdas. No entanto, uma cultura que vende a ilusão da juventude eterna dificulta esse trabalho de elaboração.

Não sofremos apenas porque envelhecemos. Sofremos porque aprendemos que envelhecer seria fracassar.

É curioso perceber como aceitamos o amadurecimento em quase tudo. Valorizamos vinhos envelhecidos, profissionais experientes, árvores centenárias e amizades construídas ao longo de décadas. Mas, quando o assunto é o nosso próprio corpo, parece que o tempo deixa de ser sinal de história e passa a ser tratado como um defeito que precisa ser apagado.

Essa contradição produz angústia. Muitos passam a viver uma corrida silenciosa contra o relógio. Cada marca no rosto deixa de representar uma história vivida e passa a ser encarada como uma falha. O corpo, que deveria ser morada, transforma-se em um projeto interminável de aperfeiçoamento.

Na clínica, essa dor aparece de muitas formas. Há quem se sinta invisível porque já não recebe os mesmos olhares. Há quem experimente um profundo medo de perder sua utilidade. Há quem viva tentando provar que continua jovem, como se admitir o passar dos anos fosse uma derrota. Em muitos casos, a angústia não está na idade em si, mas na fantasia de que, ao envelhecer, deixaremos de ser amados e/ou desejados.

Talvez essa seja até uma das maiores armadilhas do nosso tempo, confundir juventude com valor.

A psicanálise sempre irá nos propor um caminho diferente. Ao invés de lutar contra aquilo que não pode ser evitado, ela nos convida a nos questionarmos: o que significa envelhecer para mim? Quais medos essa etapa desperta? De quem são as expectativas que estou tentando atender? Isso muitas vezes faz com que o sofrimento diminua, afinal, estou tentando responder ao meu olhar ou ao olhar do outro?

Envelhecer também pode ser libertador. Aos poucos, descobrimos que não precisamos corresponder a tantos padrões. Aprendem a escolher melhor as relações, reconhecem os limites, valorizar o que realmente importa e encontram prazer em uma vida menos guiada pela necessidade de aprovação.

Não estou querendo romantizar o envelhecimento. Há perdas reais, mudanças físicas, despedidas e desafios e negar essas dificuldades seria tão ilusório quanto negar a passagem do tempo. Mas existe uma diferença importante entre sofrer pelas perdas inevitáveis da vida e sofrer tentando impedir que elas existam.

Por isso, talvez o verdadeiro desafio não seja envelhecer, mas aceitar que a beleza de uma vida não está em parecer jovem para sempre, mas em permitir que cada fase deixe suas marcas sem que isso apague quem somos.

Porque, no fim, as rugas não contam apenas quantos anos passaram. Elas contam quantas vezes sorrimos, choramos, recomeçamos e seguimos em frente. E talvez não exista sinal maior de vitalidade do que uma vida que teve coragem de ser vivida até o fim.

Voce conhece algum casal que nao dorme no mesmo quarto? Qual foi a primeira coisa que voce pensou?

Poucos assuntos despertam tanta estranheza quanto descobrir que um casal feliz decidiu dormir em quartos separados. A reação costuma ser imediata: “Será que estão brigados?”, “O casamento acabou?”, “Não existe mais intimidade entre eles?”. Vivemos em uma cultura que transformou a cama compartilhada em um símbolo quase obrigatório de uma relação saudável. No entanto, a vida psíquica raramente cabe em regras tão rígidas.

O chamado “divórcio do sono” tem se tornado cada vez mais comum. Casais escolhem dormir em ambientes diferentes para preservar aquilo que o sono oferece de mais precioso: descanso, recuperação física e equilíbrio emocional. Roncos intensos, insônia, horários incompatíveis, movimentos excessivos durante a noite ou a necessidade de acordar em horários distintos podem transformar o momento de repouso em uma fonte constante de irritação e desgaste.

A psicanálise nos convida a olhar além da aparência. Dormir separado não diz, por si só, nada sobre a qualidade de um vínculo. O que realmente importa é o significado que essa escolha assume para aquele casal. Há relações em que quartos separados representam afastamento afetivo, silêncio e impossibilidade de encontro. Em outras, representam exatamente o contrário: uma forma madura de cuidar da relação, evitando que pequenas frustrações noturnas alimentem conflitos durante o dia.

Existe uma fantasia muito presente de que o amor verdadeiro exige compartilhar tudo: a cama, o travesseiro, o cobertor, o horário de dormir. Mas amar não significa eliminar as diferenças. Um relacionamento saudável também é construído pelo reconhecimento de que duas pessoas continuam sendo sujeitos distintos, com necessidades próprias. Respeitar esses limites pode fortalecer o vínculo em vez de enfraquecê-lo.

Quando ambos descansam melhor, muitas vezes também conversam melhor, têm mais paciência, mais disponibilidade emocional e até uma vida sexual mais satisfatória. Curiosamente, ao retirar a obrigação de dividir a mesma cama todas as noites, alguns casais redescobrem o desejo de se encontrar. A cama deixa de ser um espaço de tensão e volta a ser um lugar de escolha.

Por outro lado, também é importante perguntar: por que esse casal precisa dormir separado? A decisão nasceu de um diálogo aberto ou foi apenas uma forma silenciosa de evitar conflitos? Existe desejo de proximidade durante o dia ou a distância invadiu todos os espaços da relação? Essas perguntas fazem diferença porque o problema nunca é o quarto em si, mas aquilo que ele representa.

Na clínica, aprendemos que os sintomas nem sempre estão onde parecem estar. Um casal pode dividir a mesma cama por décadas e viver emocionalmente distante. Outro pode dormir em quartos diferentes e manter uma relação profundamente íntima, baseada em afeto, respeito e desejo.

Talvez a pergunta mais importante não seja “vocês dormem juntos?”, mas “vocês continuam conseguindo se encontrar?”. Porque a verdadeira proximidade não acontece apenas entre lençóis. Ela nasce da capacidade de escutar, acolher, desejar e reconhecer o outro como alguém que pode estar ao nosso lado sem precisar abrir mão da própria singularidade.

No fim das contas, o amor não é medido pela distância entre duas camas, mas pela qualidade do vínculo construído entre duas pessoas.

Antes de começarmos, um aviso: o texto de hoje aborda um tema sensível relacionado ao sofrimento psíquico e ao suicídio.

Nesta semana, a notícia da morte do jovem jogador sul-africano Jayden Adams comoveu o mundo todo. Aos 25 anos, vivendo aquilo que para muitos seria o auge da carreira, sua partida despertou uma pergunta difícil, mas necessária: como alguém que aparentemente tinha tanto a conquistar pode carregar um sofrimento tão profundo? Até o momento, as circunstâncias de sua morte seguem sendo investigadas e a família pediu respeito e privacidade.

Até ontem, fiquei pensando se deveria abordar este tema. Não queria ser apenas mais uma pessoa transformando uma tragédia em assunto. Mas decidi escrever porque ainda existe uma ideia muito equivocada sobre o sofrimento psíquico: a de que uma pessoa com depressão está sempre deitada, sem forças para levantar da cama. Embora isso possa acontecer, especialmente em quadros graves, essa não é a única forma de sofrimento.

A reflexão que quero trazer é outra. Muitas vezes, a dor se disfarça. Ela veste sorrisos, compromissos, produtividade e uma aparente normalidade. Nem sempre conseguimos perceber que a pessoa ao nosso lado está sofrendo. Nem sempre aquele sorriso é, de fato, um sinal de que está tudo bem.

Vivemos em uma cultura que nos ensina a reconhecer a dor apenas quando ela grita. Quando ela aparece em lágrimas, em pedidos explícitos de ajuda, em crises visíveis.

Freud já dizia que o sofrimento psíquico nem sempre encontra palavras. Muitas vezes ele aparece disfarçado em sintomas, em silêncios, em um cansaço que não passa, em um vazio difícil de nomear. Nem mesmo quem sofre consegue compreender completamente aquilo que sente.

É por isso que histórias como essa nos impactam tanto. Porque elas rompem a fantasia de que sucesso, reconhecimento ou dinheiro funcionam como proteção contra o sofrimento emocional. Não funcionam. O psiquismo humano não obedece à lógica das conquistas. É possível ser admirado por milhares de pessoas e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinho.

No consultório, aprendemos que cada sujeito carrega uma história invisível. Existe uma parte da vida que nunca aparece nas fotografias, nas entrevistas ou nas redes sociais. Há perdas, conflitos, culpas, medos e dores que permanecem escondidos até mesmo daqueles que convivem diariamente conosco. O problema é que nem todos conseguem pedir ajuda a tempo.

Talvez a maior lição diante de acontecimentos como esse seja abandonar a pressa em julgar e fortalecer nossa capacidade de escutar. Nem sempre uma pessoa que está sofrendo conseguirá dizer claramente “eu preciso de ajuda”. Às vezes ela apenas se afasta. Às vezes trabalha demais. Às vezes sorri menos. Às vezes continua fazendo tudo exatamente como antes só que com um ritmo diferente.

Por isso, a psicanálise nos convida a sustentar um lugar raro na sociedade: o da escuta. Escutar sem corrigir, sem minimizar, sem responder imediatamente com frases de efeito. Muitas vezes, oferecer um espaço em que alguém possa existir com sua dor já é, por si só, um gesto profundamente terapêutico.

Falar sobre sofrimento psíquico não é incentivar o desespero. É justamente o contrário. É lembrar que nenhuma dor precisa ser enfrentada em absoluto silêncio. Quando encontramos um lugar onde nossa palavra pode ser acolhida, algo daquilo que parecia impossível de suportar começa, pouco a pouco, a ganhar outra forma.

Então que, a comoção provocada por essa perda nos convide menos à curiosidade sobre o que aconteceu e mais ao cuidado com aqueles que caminham ao nosso lado. Porque nem toda dor faz barulho. E, justamente por isso, toda escuta pode fazer diferença.

Essa semana, muitos de nós sentimos a mesma coisa: decepção, tristeza e, para alguns, até raiva. A nossa seleção brasileira, o país conhecido mundialmente como “o país do futebol”, foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo.

É curioso como um jogo de futebol consegue mexer tanto com a gente. Durante dias, vestimos a camisa, mudamos a rotina para assistir às partidas, criamos expectativas, imaginamos o caminho até a final. E, quando o apito encerra o sonho, algo dentro de nós também parece terminar.

Logo surgem os comentários: “É só futebol”, “Semana que vem ninguém lembra mais”, “Tem problemas muito maiores para se preocupar”. E é verdade que existem problemas maiores. Mas isso não significa que o que sentimos seja pequeno.

A psicanálise nos ensina que não sofremos apenas quando perdemos pessoas. Também sofremos quando perdemos aquilo em que investimos desejo, esperança e afeto.

Quando o Brasil entra em campo em uma Copa do Mundo, não torcemos apenas por onze jogadores, torcemos pelas lembranças da infância assistindo aos jogos com a família, pelos amigos reunidos em frente à televisão, pela sensação rara de ver um país inteiro vibrando pelo mesmo motivo. Torcemos pela fantasia de que, desta vez, tudo dará certo. Por algumas semanas nos esquecemos desses grandes problemas que temos. E é justamente essa fantasia que morre quando a eliminação acontece.

Freud dizia que o luto não acontece apenas diante da morte de alguém. O luto é a resposta psíquica a qualquer perda significativa. Perdemos relacionamentos, oportunidades, versões de nós mesmos e sonhos que alimentamos por muito tempo. Em cada uma dessas perdas, há um investimento afetivo que precisa ser retirado daquilo que já não existe.

É exatamente esse trabalho que, muitas vezes sem perceber, fazemos depois de uma derrota como essa.

Algumas pessoas ficam irritadas e procuram um culpado. Outras fazem piadas. Algumas evitam assistir ao restante da competição. Há quem simplesmente perca o interesse pelo futebol durante alguns dias. Cada uma dessas reações é uma forma de lidar com a frustração.

No fundo, a eliminação da Seleção acaba funcionando como um espelho. Ela revela como cada um de nós costuma enfrentar as perdas da vida. Há quem negue, quem racionalize, quem se revolte e quem consiga, aos poucos, aceitar que nem tudo acontece como imaginamos.

Talvez seja por isso que essa tristeza pareça tão desproporcional para quem olha de fora. Porque ela não fala apenas de futebol, ela fala de expectativa, pertencimento, identidade e esperança.

A Copa do Mundo termina para um time. Mas, dentro de cada torcedor, termina também uma história que vinha sendo construída há semanas e, para muitos, desde a última Copa.

Talvez o luto pela derrota do Brasil nunca tenha sido apenas sobre futebol. Talvez ele seja mais uma lembrança de que viver é apostar, criar expectativas e, inevitavelmente, aprender que nem todos os sonhos chegam até a final.

A copa do mundo está rolando e eu amo essa energia; é fascinante ver como todo mundo torce, mas, ao mesmo tempo, não há brigas ou discussões, e somos capazes de sentir uma tristeza genuína até pelo nosso próprio adversário. Esse cenário, onde a paixão esportiva convive com uma estranha forma de empatia, diz muito sobre como construímos o nosso Ideal do Eu.

Quando vemos alguém, no meio de uma multidão vestida com as mesmas cores, olhando fixamente para o campo, vemos mais do que uma paixão esportiva, vemos uma projeção intensa. A Copa do Mundo, em toda a sua magnitude, funciona como um grande espelho coletivo onde depositamos não apenas a torcida, mas uma parte do que gostaríamos de ser e de realizar. Esse “Ideal do Eu” é como um norte psíquico, uma imagem idealizada de perfeição, triunfo e completude que buscamos alcançar.

No futebol, o jogador que corre atrás da bola e levanta a taça torna-se, naquele instante, a personificação desse ideal que vive em cada um de nós. A esperança, então, ganha um contorno quase palpável: acreditamos, talvez por um momento, que se o nosso time triunfar, nós também, de alguma forma, estamos superando nossas próprias limitações e alcançando aquele topo inalcançável.

É um fenômeno curioso, porque a derrota de um time pode ser sentida como uma pequena ferida narcísica, uma frustração que reverbera lá dentro, justamente porque parte da nossa esperança estava depositada ali. Ao mesmo tempo, essa união pelo esporte nos oferece um lugar de pertencimento, um espaço onde o individual se funde ao coletivo sob a proteção de um ideal compartilhado.

Entender esse movimento, de como colocamos tanto de nós mesmos fora, nos objetos e nos ídolos, é um dos caminhos para compreender a força que nos move e a forma como a esperança se mantém viva, mesmo quando o apito final do juiz insiste em nos trazer de volta para a realidade comum. No fundo, torcer é um exercício complexo de manter o desejo aceso, nutrindo esse ideal que, mesmo sabendo ser inalcançável, é o que dá cor e sentido à nossa busca pessoal por algo maior.

Por isso, VAI BRASIIIIL!!