Somos todos América

A abertura do Super Bowl LX não foi apenas um espetáculo de luzes e ritmos latinos; foi um manifesto político e subjetivo que ecoará por muito tempo na nossa percepção de cultura e saúde mental. Quando Bad Bunny subiu ao palco e bradou que “Juntos somos América”, ele não estava apenas corrigindo um erro geográfico comum, mas realizando um movimento profundo de afirmação da identidade frente ao que a psicanálise chama de “Grande Outro”. Esse Grande Outro representa a ordem social, as leis e as expectativas que nos rodeiam e que, para a comunidade latina nos Estados Unidos, frequentemente tenta silenciar sua língua e apagar sua história sob o pretexto de uma integração que, na verdade, é anulação.

A performance de Bad Bunny (com bandeiras de todo o continente e críticas diretas às políticas de imigração e ao sistema estabelecido) foi um ato de resistência psíquica em estado puro. Ao se recusar a performar o papel do “latino idealizado”, aquele que apenas entretém sem incomodar, ele reivindicou o direito de existir em sua totalidade, peitando a elite e mostrando que a saúde mental de um povo está intrinsecamente ligada à sua capacidade de narrar sua própria história com as suas próprias palavras. Sob a ótica da neuropsicologia, sabemos que o sentimento de não-pertencimento e o preconceito sistemático geram um estado de alerta constante e estresse tóxico, o que afeta diretamente a regulação emocional e a autoestima, criando uma espécie de trauma crônico.

Quando um artista desse porte ocupa o maior palco do mundo para dar voz aos marginalizados, ele oferece uma ferramenta de reparação simbólica. Ele transforma a dor da exclusão em orgulho coletivo, permitindo que o sujeito saia da posição de objeto — aquele que é olhado e julgado — para a posição de autor da sua própria vida. A frase “Somos todos América” é, portanto, um convite para abandonarmos a “colonização psíquica” que sofremos diariamente quando tentamos nos encaixar em moldes alheios para sermos aceitos. No fim, a verdadeira liberdade e a saúde mental florescem quando paramos de pedir permissão para ser quem somos e passamos a ocupar nossos espaços com a dignidade de quem conhece o valor de suas raízes.