O amor no tempo do ´´descarte“.
Ultimamente, o silêncio do meu consultório tem sido preenchido por um tipo de angústia que parece ter a mesma raiz, embora se manifeste de formas opostas. De um lado, recebo pessoas que chegam fragmentadas, com uma dificuldade quase paralisante de se olharem com o mínimo de benevolência, sem saber ao certo o que desejam ou para onde apontam suas bússolas internas. É um deserto de si, onde o “não sei o que quero” esconde, na verdade, um medo profundo de não ser o bastante para o próprio desejo. De outro, vejo o amor ser convocado como uma ferramenta de gestão, quase uma planilha de controle, onde o outro não é um par, mas um objeto que precisa se moldar perfeitamente às expectativas de quem ama. Nessas histórias, o afeto vira posse e a vulnerabilidade do parceiro é lida como uma falha no sistema que precisa ser corrigida.
O que une esses dois extremos é a dificuldade de lidar com a alteridade, com aquilo que o outro tem de incontrolável e que nós mesmos temos de faltante. Vivemos o tempo do descarte não apenas porque jogamos relações fora com facilidade, mas porque descartamos a subjetividade em prol de um ideal narcísico. Freud nos ensinou que o narcisismo é uma proteção, uma espécie de armadura que nos impede de sentir a dor da nossa própria incompletude. Quando não sabemos o que queremos, muitas vezes é porque estamos esperando que o mundo nos dê uma resposta pronta, um manual de instruções que nos poupe da angústia da escolha. E quando tentamos controlar o outro sob a máscara do amor, estamos, no fundo, tentando calar a incerteza que a presença de um sujeito livre nos causa. Lacan dizia que amar é dar o que não se tem, mas no tempo do consumo, queremos dar o que temos em excesso, controle, cobrança, regras, ou pedir o que o outro não pode nos oferecer, a cura para o nosso próprio vazio.
O amor que sobrevive a essa lógica do descarte é aquele que suporta o desamparo. É o amor que entende que o outro nunca será a peça que falta no nosso quebra-cabeça, mas alguém que caminha ao lado enquanto ambos tentam entender seus próprios furos. Percebo na minha prática que a cura não vem de encontrar o parceiro ideal ou de se tornar “perfeito” para si mesmo, mas de conseguir sustentar o olhar diante do espelho e do outro sem o desejo de aniquilar o que é diferente. O amor real começa justamente quando o controle falha e a gente se permite não saber tudo. Talvez o grande ato de coragem hoje seja aceitar a nossa própria imperfeição para que, enfim, possamos dar lugar ao encontro verdadeiro, aquele que não cabe em uma caixa e que não se joga fora na primeira frustração. Afinal, se o amor é o que nos humaniza, o descarte é o que nos apaga.




