O Silêncio como Colo: O que Winnicott nos ensina sobre a pausa
Às vezes, quando o dia termina e o silêncio finalmente se instala, sinto que ele não chega como uma ausência de som, mas como uma presença quase física. Para muitos de nós, esse momento é assustador. Corremos para o celular ou ligamos qualquer ruído de fundo porque o silêncio, na nossa cultura do desempenho, soa como solidão. Mas, na minha prática e nas minhas leituras, aprendi a olhar para esse vazio de outra forma, especialmente através das lentes sensíveis de Winnicott.
Winnicott nos presenteou com um conceito belíssimo: a capacidade de estar só. Para ele, essa não é uma habilidade que nasce conosco, mas uma conquista do desenvolvimento que começa lá atrás, no colo. É aquela cena comum de um bebê brincando calmamente enquanto a mãe ou o cuidador lê um livro ao lado. O bebê está só, mas está só na presença de alguém. Esse “alguém” garante um ambiente seguro, um holding que permite que a criança não precise se defender do mundo, apenas existir.
Transportando isso para a nossa vida adulta e para o meu trabalho no consultório, percebo que perdemos essa segurança. O mundo barulhento de hoje parece um ambiente “invasivo”, que exige que estejamos o tempo todo reagindo a estímulos. Quando não há barulho, sentimos que o suporte sumiu. O medo do silêncio, no fundo, é o medo de que, se pararmos de produzir ruído, deixaremos de existir ou seremos invadidos por angústias antigas.
Na análise, o meu silêncio enquanto profissional tenta resgatar esse ambiente suficientemente bom. Não é um silêncio de indiferença, mas um silêncio de companhia. É como se eu dissesse: “Pode parar de falar um pouco. Pode apenas ser. Eu estou aqui sustentando o espaço para você”. É nesse intervalo, quando a pessoa para de tentar me explicar o mundo e começa a sentir a própria existência, que algo autêntico acontece.
Winnicott dizia que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo“. E, para mim, o silêncio é o quintal onde essa brincadeira do pensamento acontece. Sem a pausa, a vida vira uma sucessão de reações automáticas, o que ele chamava de “Falso Self”. Já no silêncio protegido, o nosso “Verdadeiro Self” pode finalmente colocar o nariz para fora e respirar.
Por isso, o convite que faço hoje é o de não temer esses minutos de mudez. Que possamos redescobrir o silêncio não como um abismo de solidão, mas como um espaço de repouso e criação. Porque as vezes, a maior conversa da nossa vida acontece justamente quando as palavras decidem descansar.




