Feminicídio: uma leitura psicanalítica de um fenômeno estrutural
Você sabia que o Brasil bateu recorde de feminicídios em 2025?
Foram cerca de 1.470 mulheres assassinadas. Talvez você já tenha ouvido esse número antes. Talvez tenha passado rápido por ele. Mas eu te pergunto: o que esse dado provoca em você quando você para pra sentir?
Em 2026, a média continua a mesma, quatro mulheres mortas por dia. Não é uma estatística distante, fria, impessoal. São mulheres como nós. Mulheres que trabalharam, cuidaram, amaram, planejaram. Mulheres que tiveram suas vidas interrompidas, muitas vezes, apenas por dizer NÃO.
Talvez a leitura não fique leve. E não deve ficar. Porque não estamos falando de algo abstrato. Estamos falando de vínculos que adoecem, de relações em que o limite feminino é vivido como ameaça. Estamos falando de mulheres mortas por exercer algo básico: a própria vontade.
A maioria desses assassinatos acontece dentro de casa, cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Isso desmonta uma ideia muito comum de que o perigo vem de fora. O risco, na maioria das vezes, está no íntimo, no cotidiano, no vínculo que um dia foi chamado de amor. O espaço que deveria proteger se transforma em cenário de aniquilamento.
E talvez você também se pergunte: como isso acontece?
Como alguém mata alguém que diz amar?
Do ponto de vista psicanalítico, essa pergunta é fundamental. O feminicídio não começa no ato final. Ele começa quando a mulher deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ocupar o lugar de objeto. Objeto que deve corresponder, permanecer, não frustrar. Quando essa mulher diz não, quando se separa, quando escolhe por si, o que aparece, em muitos casos, é a incapacidade psíquica de lidar com a perda, com o limite, com a frustração.
Na clínica, sabemos: quando não há simbolização, há atuação. E a atuação, levada ao extremo, pode ser violenta. Pode ser destrutiva. Pode ser fatal.
O feminicídio se sustenta em fantasias antigas de posse e controle, reforçadas por uma cultura que ainda naturaliza a dominação masculina e responsabiliza a mulher por conflitos que não são dela. Não se trata apenas de indivíduos violentos, mas de uma estrutura que autoriza, silencia e repete.
Por isso, estratégias de enfrentamento pensadas apenas para o espaço público falham. A violência acontece no privado, no vínculo, no que é invisível aos olhos sociais. Enquanto insistirmos em tratar o feminicídio como exceção, como tragédia isolada, continuaremos contando mulheres mortas, muitas delas assassinadas no momento em que tentaram se separar, se proteger ou simplesmente dizer não.
Talvez o mais difícil seja admitir: isso nos atravessa. Fala de como a sociedade lida com a autonomia feminina, com o desejo, com a frustração masculina e com a dificuldade histórica de reconhecer a mulher como sujeito de direito e de desejo.
A psicanálise não oferece respostas fáceis, mas oferece algo essencial: a possibilidade de escutar o que esse fenômeno denuncia sobre nossos vínculos e sobre a cultura em que vivemos. Fingir que não vemos é repetir. Encarar é, ao menos, tentar interromper.
Se esse texto não ficou leve, é porque o tema não permite.
Mas talvez ele cumpra uma função ainda mais importante: não deixar que o NÃO de uma mulher continue sendo motivo de morte.




