Independência, eleições e o desejo do Outro.

Setembro começou e com ele duas coisas que quase nunca aparecem juntas: a semana da Independência e um ano de eleições. Isso é uma boa desculpa para nos perguntarmos: será que existe independência de verdade — de uma pessoa ou de um país — ou toda independência depende, sempre, de outros?

Jacques Lacan defendia uma ideia que contraria o senso comum: a de que nossos desejos não nascem de dentro para fora, como se fossem só “nossos”. Eles se formam na relação com os outros — a família, a cultura, a língua que falamos, as regras da sociedade em que crescemos.

Na prática, isso quer dizer que, antes de “querer” alguma coisa, a gente já nasceu dentro de um monte de influências que não escolheu. Ninguém escolhe a língua que vai falar, a época em que nasce, os valores que a família passa. Então, quando a gente acha que está “decidindo por conta própria”, na verdade estamos decidindo dentro de um espaço que já foi moldado por outras pessoas antes da gente.

Isso não significa que somos fantoches, sem nenhuma escolha própria. Significa que a ideia de um “eu” totalmente livre, que decide tudo sozinho, de dentro para fora, é mais uma história que a gente conta para si mesmo do que um fato.

Um exemplo disso é a Independência, nós comemoramos como se fosse o momento em que o Brasil deixou de depender de qualquer coisa. Mas, olhando com mais calma, essa ideia é parecida com a fantasia da liberdade individual total, ela ajuda a contar uma história bonita, mas não descreve a realidade por completo.

Um país “independente” continua dependendo de outros países, de acordos comerciais, de decisões econômicas que não controla sozinho. Isso não anula a Independência, só mostra que “ser independente” nunca quer dizer “não depender de nada”.

Votar também é um bom exemplo dessa mistura entre escolha própria e busca por outra pessoa. Quando alguém vota, está escolhendo, mas também está procurando, no candidato, alguém que “traduza” o que essa pessoa deseja e sinta falta na sociedade.

É por isso que a política mexe tanto com as emoções: não é só uma questão de concordar com propostas, é também uma questão de se identificar com alguém, de projetar nessa pessoa uma esperança de que “agora vai resolver”.

A prática clínica mostra, no entanto, que nenhuma liderança consegue resolver tudo (nem para uma pessoa, nem para um país inteiro) porque sempre vai sobrar alguma insatisfação, alguma coisa que falta. Isso é normal, faz parte de sermos seres que vivem em sociedade, não é um defeito a ser consertado.

Portanto, se a liberdade total é mais fantasia do que realidade, isso não quer dizer que não vale a pena buscar autonomia. Existe uma diferença importante entre: viver seguindo o que os outros esperam sem perceber isso; e perceber que os outros influenciam nossas escolhas, e mesmo assim ir se responsabilizando por elas.

É nesse segundo sentido que “ser independente” pode ser entendido como um processo contínuo, e não como algo que se alcança de uma vez por todas. O mesmo vale para um país: ele nunca deixa de depender de outros, mas pode aprender a negociar melhor essa dependência.