Quando o ídolo vira paixão: o que existe por trás do amor adolescente?

Quem já passou pela adolescência provavelmente já viveu alguma versão dessa “história de amor”. Pode ter sido uma cantora, um ator, um jogador de futebol, uma banda ou até mesmo um personagem de filme ou série. Alguém que ocupava os pensamentos, aparecia nos pôsteres do quarto, fazia parte das conversas e parecia, por algum tempo, ser a pessoa mais especial do mundo. Talvez hoje, olhando para trás, seja fácil sorrir daquela paixão e pensar: “Como eu conseguia gostar tanto de alguém que nem conhecia?” (é o que sempre me pergunto kk).

Mas quando trazemos essa cena para o olhar psicanalítico conseguimos perceber que quando um adolescente se apaixona por um ídolo, não está necessariamente apaixonado apenas pela pessoa que vê na televisão, nas redes sociais ou nos palcos, mas pelo o que aquela pessoa representa. O ídolo pode encarnar características que o adolescente admira, deseja ou gostaria de encontrar em si mesmo. Pode representar beleza, liberdade, coragem, popularidade, independência, talento, força ou simplesmente uma maneira de existir que parece fascinante.

A adolescência é um período marcado por transformações. O corpo muda, as relações familiares se reorganizam, antigas certezas começam a ser questionadas e o adolescente passa a buscar novas referências para construir sua identidade. Aquilo que antes vinha principalmente da família começa a ser procurado também fora dela. O grupo de amigos ganha importância, novos modelos de identificação aparecem e figuras públicas podem ocupar um lugar significativo nesse processo e é nesse contexto que o ídolo pode ganhar uma dimensão especial.

Ao olhar para alguém que admira, o adolescente está de alguma maneira, experimentando possibilidades sobre si mesmo. “Eu gostaria de ser assim.” “Eu queria ter essa personalidade.” “Eu queria viver algo parecido.” “Eu queria que alguém me olhasse dessa forma.” A admiração pode funcionar como uma forma de identificação, ajudando o adolescente a experimentar diferentes versões de quem pode vir a ser.

Além disso, quando nos apaixonamos, dificilmente enxergamos o outro apenas como ele é. Existe a idealização, alguma coisa da nossa própria fantasia envolvida na maneira como construímos a imagem de quem desejamos. No caso de um ídolo, isso pode ser ainda mais intenso porque existe uma distância que favorece a fantasia. O adolescente conhece entrevistas, músicas, filmes, fotos, vídeos e publicações, mas não conhece necessariamente aquela pessoa em sua vida cotidiana, com seus defeitos, contradições, frustrações e limitações. Por isso, quando vemos alguém que idealizamos fazer algo que contraria a imagem que construímos, podemos nos frustrar profundamente. Às vezes, essa quebra é suficiente para fazer com que a admiração desapareça. Em outras, preferimos ignorar, justificar ou minimizar aquilo que aconteceu, numa tentativa de preservar o ideal que construímos dentro de nós. Afinal, reconhecer que o outro não é exatamente aquilo que imaginávamos também significa lidar com a queda da fantasia.

A fantasia pode ser construída sobre uma imagem idealizada, mas os sentimentos despertados por ela são reais. A ansiedade, a empolgação, o frio na barriga, a tristeza, o desejo e até mesmo a sensação de pertencimento podem ser profundamente verdadeiros para quem os experimenta.

Nesse sentido, o ídolo pode se tornar uma espécie de tela sobre a qual o adolescente projeta desejos, expectativas e possibilidades.

Na vida real, amar alguém significa lidar com aquilo que a fantasia não controla: a rejeição, a diferença, a frustração, o limite, o conflito e a descoberta de que o outro nunca será exatamente aquilo que imaginamos. Com o ídolo, é possível manter a imagem idealizada por muito mais tempo.