Setembro Amarelo: quando a dor deixa de encontrar palavras
Alerta de gatilho
Todo mês de setembro, o amarelo toma as redes sociais, os prédios públicos, as camisetas de campanha. É a cor escolhida há dez anos, no Brasil, para lembrar que existe um problema que insistimos em tratar como assunto de bastidores: o suicídio. Hoje, 10 de setembro, é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, data instituída pela Organização Mundial da Saúde em 2003 e que o Brasil transformou, a partir de 2015, em campanha de um mês inteiro.
Mas há algo nessa campanha que vale a pena parar e pensar, além das estatísticas (que são graves) só em 2024, o Brasil registrou mais de 16 mil mortes por suicídio, uma média de 44 pessoas por dia. Esse número não fala sozinho. Ele esconde uma pergunta que atravessa consultórios, salas de aula, mesas de jantar: por que, tantas vezes, quem sofre não consegue dizer que está sofrendo?
A resposta mais fácil é pensar que a pessoa “não quis” pedir ajuda, ou que “escondeu bem” o que sentia. Mas a experiência clínica mostra algo mais delicado: existe uma dor que não encontra palavras não porque a pessoa se recuse a falar, mas porque, naquele momento, a linguagem simplesmente não alcança o que está sendo sentido. É como tentar descrever uma cor a alguém que nunca a viu, as palavras chegam perto, mas não fecham o círculo. Só que, aqui, o que fica de fora não é uma cor, é um sofrimento que continua ali, pesando, mesmo sem nome.
A psicanálise convive com essa ideia há mais de um século: nem toda dor cabe em frase. Há sofrimentos que a pessoa sente no corpo antes de conseguir pensar sobre eles, no sono que não vem, no cansaço que não passa, no corpo que emagrece ou trava. Há dores que aparecem primeiro como irritação, como isolamento, como um silêncio que dura semanas. Nenhuma dessas formas é fingimento ou drama. São, muitas vezes, a única linguagem disponível para algo que ainda não virou palavra.
Isso muda o que significa “ficar atento” no Setembro Amarelo. Não se trata apenas de esperar que alguém diga, com todas as letras, “estou pensando em morrer”, embora, quando isso acontece, deva ser levado a sério, sempre, sem minimizar. Trata-se também de aprender a escutar o que se diz por outros caminhos: a mudança de rotina, o afastamento repentino, as frases que soam como despedida disfarçada de piada, o “está tudo bem” repetido rápido demais. Escutar, aqui, é mais do que ouvir o conteúdo, é notar a forma, o tom, o que se repete, o que muda.
E há uma segunda parte, tão importante quanto a primeira: perguntar diretamente não aumenta o risco, ao contrário, costuma aliviar. Existe um mito antigo de que falar sobre suicídio “planta a ideia” na cabeça de alguém. As evidências apontam na direção oposta. Perguntar com cuidado, sem julgamento, costuma abrir uma porta que a pessoa não sabia como abrir sozinha. Às vezes, a pergunta de outra pessoa é a primeira vez que aquela dor ganha um contorno, um lugar para existir fora da cabeça de quem sofre.
Setembro Amarelo não é sobre ter a resposta certa ou o discurso perfeito. É sobre estar disponível para uma conversa que pode ser desconfortável, sustentar o silêncio quando as palavras ainda não vêm, e não desistir de perguntar de novo amanhã. É também sobre lembrar que buscar ajuda profissional não é o último recurso, é um cuidado, como qualquer outro cuidado com a saúde.
Se você, ou alguém que você conhece, está passando por um momento assim, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias, pelo telefone 188, e também por chat e e-mail em cvv.org.br. Em situações de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192. Nenhuma dor precisa ficar sem palavra até o fim.



