Tenho tudo para estar bem, mas nao estou.
Quantas vezes você já se pegou pensando: “Mas eu tenho tudo para estar bem… por que não estou?” E aí, junto com essa pergunta, vem a culpa, o medo de parecer ingrato, ou a sensação de que tem algo errado com você. Mas deixa eu te dizer uma coisa: essa sensação é mais comum do que parece e não, não tem nada de errado com você por se sentir assim as vezes.
Vivemos em uma sociedade que nos cobra produtividade, alta performance emocional e gratidão constante. Quando não conseguimos acompanhar esse ritmo, começamos a duvidar de nós mesmos: “Será que estou sendo fraco? Mimado? Ingrato?”
No consultório escuto muitos relatos assim: pessoas que têm um bom emprego, uma família que ama, saúde estável, mas algo nelas simplesmente não encontra paz. E é aí que entra a importância de parar e escutar, de verdade, o que está se passando. Vivemos numa época em que o bem-estar virou quase uma obrigação. Há uma pressão constante para estarmos felizes, produtivos, agradecidos e motivados o tempo todo. E quando algo dentro da gente não acompanha esse ritmo, a frustração aparece. Às vezes silenciosa, às vezes em forma de cansaço, de apatia, de ansiedade ou até em sintomas físicos.
Aqui na psique, nas aulas, nas supervisões e também nos conteúdos que produzimos, tentamos sempre lembrar: nem tudo o que sentimos é visível na superfície. E nem sempre o que está “aparentemente bem” por fora está resolvido por dentro. E é aí que entra a importância de parar e escutar, de verdade, o que está se passando. O sofrimento psíquico não segue lógica matemática. Muitas vezes, o que está em jogo são questões inconscientes, desejos não ditos, conflitos antigos, partes da nossa história que não conseguimos elaborar completamente.
O “tenho tudo para estar bem” parte de um ideal: o de que a felicidade virá quando tudo estiver no lugar. Mas a psicanálise nos convida a questionar esse ideal. Ter as condições externas não garante a satisfação interna. E tudo bem. Isso não faz de você ingrato, fraco ou “menos espiritualizado”. Faz de você um sujeito.
Talvez a resposta não venha de imediato. Talvez não venha em forma de resposta, mas de movimento.
E se você sentir que precisa de ajuda para escutar o que está aí dentro, buscar análise pode ser um bom caminho. A escuta analítica não busca consertar, mas compreender. E isso, por si só, já pode ser profundamente transformador.
Ter uma vida organizada, um bom emprego, relações estáveis ou uma rotina confortável não significa que o sujeito esteja em paz. A falta, o vazio, o desconforto… tudo isso faz parte da experiência humana. E ignorar essas sensações ou tentar apagá-las com positividade forçada pode só aumentar o sofrimento.
Se eu pudesse te convidar a pensar algo hoje, seria isso: em vez de tentar se convencer de que “deveria” estar bem, que tal se perguntar com carinho e curiosidade por que não está?




