Por que a gente compra o que não cabe no bolso? A fome que o chocolate não mata.

A Páscoa está chegando e, muito antes desta semana, os chocolates já estavam expostos. O susto com os preços pautava os comentários, mas, quanto mais perto chegamos da data, mais vazias vemos as prateleiras. Ué? Mas não estava caro? O que nos faz comprar aquilo que não nos cabe?

Em um mundo regido pelo imediatismo do clique e pela vitrine incessante das redes sociais, o ato de comprar deixou de ser uma simples troca de bens para se tornar um fenômeno complexo de subjetividade. Frequentemente, nos vemos diante de uma fatura de cartão de crédito que não condiz com a nossa realidade financeira, segurando um objeto que, minutos antes, parecia ser a peça que faltava para o nosso quebra-cabeça existencial.

A psicanálise nos ensina, e já comentei diversas vezes por aqui, que o desejo humano é, por natureza, insaciável. Diferente da necessidade, que se resolve com o objeto adequado, como a fome que passa após a refeição, o desejo desliza de objeto em objeto. O chocolate, nesse contexto, representa o consumo material. Ele oferece um prazer momentâneo, uma descarga de dopamina e uma sensação de preenchimento, mas, por ser um substituto simbólico, ele jamais atinge a raiz da carência que o originou.

Muitas vezes, o consumo excessivo funciona como uma tentativa de bloquear uma falta constituinte. Compramos para aliviar a ansiedade, para sustentar uma imagem que gostaríamos que os outros vissem ou para punir a nós mesmos em um ciclo de culpa e gratificação. A compra por impulso surge como uma promessa de completude: “Minha páscoa não será a mesma se não comer esse ovo“ ou ´´É só nessa época que tenho essa oportunidade“. No entanto, como o objeto é concreto e a falta é simbólica, o abismo permanece.

Viver além das posses financeiras é, muitas vezes, uma forma de viver além das posses psíquicas. É a dificuldade de lidar com o “não”, com o limite e com a frustração de que não podemos ter tudo. O mercado capitalista se aproveita dessa fragilidade, vendendo não apenas produtos, mas estilos de vida e identidades prontas. Ao passar o cartão sem planejamento, o indivíduo pode estar tentando, inconscientemente, comprar um tempo que não tem ou um afeto que lhe falta.

Reconhecer que o objeto de consumo é apenas um véu para questões mais profundas é o primeiro passo para uma relação mais saudável com o próprio desejo. Quando entendemos que nenhuma mercadoria é capaz de preencher o vazio subjetivo, a compulsão perde parte de sua força. Afinal, a verdadeira satisfação não está no acúmulo daquilo que o bolso comporta, mas na capacidade de suportar a falta sem precisar escondê-la sob camadas de plástico e boletos.