O mal-estar na cultura digital.

Se você está lendo este texto, é quase certo que o faz através de uma tela. Talvez entre uma notificação de e-mail e notificações de alguma rede social. E eu quero começar te fazendo uma pergunta: você já sentiu que, por mais que você se conecte, parece que algo essencial está se perdendo no caminho?

Lá em 1930, Freud escreveu uma de suas obras mais famosas, O Mal-Estar na Civilização. Ele dizia, em resumo, que para vivermos em sociedade, precisamos abrir mão de parte de nossos impulsos. Trocamos um pouco de “felicidade” por um pouco de “segurança”. O resultado? Um mal-estar crônico, uma sensação de que a vida em cultura exige demais de nós.

Hoje, quase cem anos depois, o mal-estar mudou de endereço: ele se mudou para o digital. Se antes o peso vinha das regras rígidas da família e do estado, hoje o peso vem de uma nova cobrança: a performance da felicidade.

Nas redes sociais, não basta ser; é preciso parecer. E não é parecer de qualquer jeito, é parecer de forma impecável. Lacan nos falava sobre o “Estágio do Espelho”, aquele momento na infância em que a criança se olha e se encanta com aquela imagem inteira, perfeita, que o espelho devolve. O problema é que o Instagram virou um espelho de 24 horas. Vivemos tentando sustentar uma imagem que, no fundo, não somos nós. É o que chamamos de “Eu Ideal” atropelando o nosso eu real, cheio de falhas, cansaço e dúvidas.

E aí vem o cansaço. Um cansaço que não é só físico, é psíquico. É a exaustão de ter que vender a própria imagem o tempo todo. Sabe aquela sensação de que se você não postou, você não existe? Isso é o simbólico sendo engolido pelo imaginário. A gente para de viver a experiência para poder registrá-la.

O resultado desse “mal-estar digital” a gente vê no consultório todos os dias: ansiedade por comparação, a angústia de estar perdendo algo e, principalmente, uma dificuldade imensa de suportar o silêncio e o vazio. O algoritmo não nos deixa faltar nada, ele nos entrega conteúdo antes mesmo de sentirmos o desejo de buscar. E, como já conversamos por aqui, sem falta, não há desejo. Ficamos empanturrados de informação, mas famintos de sentido.

A psicanálise hoje tem um papel fundamental: nos devolver o direito à imperfeição. No divã, não tem filtro. Não tem edição. É o único lugar onde o cancelamento não existe, porque o que buscamos é justamente aquilo que a cultura digital tenta esconder, a nossa verdade nua e crua, com todos os seus tropeços.

Talvez o segredo para aliviar esse mal-estar não seja desconectar o Wi-Fi, mas reconectar com a nossa própria falta. É aceitar que não precisamos ser curtidos o tempo todo para existirmos.

E você? Como tem lidado com o peso desse espelho digital na sua vida?