Saúde mental não é estar bem o tempo todo

Em outubro se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental, no dia 10, e é provável que nesta semana você esbarre em muitas mensagens sobre autocuidado, equilíbrio e bem-estar. São mensagens importante, mas no meio delas, costuma passar despercebida uma ideia que vale a pena desmontar com calma: a de que ter saúde mental é estar bem o tempo todo.

Basta abrir as redes sociais para encontrar a versão mais polida da vida dos outros. Rotinas matinais impecáveis, rostos descansados, conquistas em sequência, frases motivacionais lembrando que “só depende de você”. Aos poucos, sem que ninguém diga isso em voz alta, vai se formando uma espécie de regra silenciosa: quem está triste, cansado, irritado ou confuso está fazendo alguma coisa errada. Como se o sofrimento fosse uma falha de gestão pessoal, algo a ser corrigido rapidamente com a técnica certa, o hábito certo ou o produto certo.

O curioso é que essa regra, em vez de nos deixar mais leves, costuma pesar ainda mais. Quem já se sentiu mal e, logo em seguida, se sentiu culpado por estar se sentindo mal conhece bem esse efeito. A tristeza de um dia difícil ganha uma segunda camada: a vergonha de não estar dando conta. E aí não sofremos só pelo que aconteceu, mas também por não conseguir sustentar a imagem de quem nunca balança.

Existe uma diferença importante entre sofrer e adoecer. Ficar triste quando alguém querido vai embora, sentir medo diante de uma mudança grande, ficar irritado depois de uma semana exaustiva, chorar sem saber exatamente por quê, nada disso é, por si só, sinal de que algo está quebrado. Na maior parte das vezes, é sinal de que estamos vivos e de que as coisas nos afetam.

Podemos pensar no luto, quando perdemos alguém, ou mesmo um emprego, uma relação, um plano que parecia certo, precisamos de tempo para nos despedir daquilo que já não existe. Esse trabalho é lento, dói, e não acontece em linha reta. Há dias melhores e dias piores. Tentar pular essa etapa, fingindo que está tudo bem antes de estar, raramente resolve. Muitas vezes, o que não foi vivido volta depois, por outros caminhos: no corpo, no sono, numa irritação que não se explica, numa sensação de vazio que aparece sem aviso.

Os sentimentos difíceis também costumam trazer notícias. A angústia que aparece toda vez que você pensa em determinado assunto, o cansaço que não passa mesmo depois das férias, a tristeza que volta sempre na mesma época do ano: tudo isso diz alguma coisa sobre a sua história, sobre o que você deseja e sobre o que está sendo difícil de encarar. Calar esses sinais à força é um pouco como desligar o alarme de incêndio porque o barulho incomoda.

Por isso, ter saúde mental não é estar bem o tempo todo, talvez ter saúde mental seja algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais rico. Seja a possibilidade de atravessar os momentos ruins sem se perder completamente neles. De conseguir, mesmo nos dias difíceis, continuar se relacionando com as pessoas, cuidando minimamente de si, trabalhando, criando, encontrando algum sentido nas coisas. De poder sentir raiva sem destruir tudo, tristeza sem desaparecer, medo sem se paralisar por completo.

Ter saúde mental também passa por conseguir falar do que se sente. Não necessariamente para todo mundo, nem o tempo todo, mas ter algum lugar onde a sua dor possa ser dita e escutada sem pressa de ser consertada. Há algo de muito aliviador em perceber que aquilo que parecia insuportável dentro da cabeça ganha outro tamanho quando é colocado em palavras e encontra alguém disposto a ouvir.

Alguns sinais merecem atenção: quando a tristeza ou a ansiedade duram semanas e não dão trégua; quando fica difícil dormir, comer, trabalhar ou estudar; quando você se afasta de pessoas e atividades que antes importavam; quando surgem pensamentos de que a vida não vale a pena ou de que seria melhor não existir.

Nesses casos, procurar um psicanalista e um psiquiatra não é sinal de fraqueza, e sim de cuidado. A análise não serve para fazer alguém “voltar a estar bem o tempo todo”, até porque isso nunca existiu. Serve para abrir espaço para entender o que está acontecendo, dar sentido ao que se repete e encontrar formas menos dolorosas de viver com aquilo que não pode ser simplesmente apagado.

Talvez a mensagem mais útil deste mês dedicado à saúde mental não seja mais uma lista de dicas para ficar bem, mas uma permissão: a de não estar bem às vezes. Porque saúde mental não é a ausência de tempestades. É poder atravessá-las sem precisar fingir que o céu está sempre azul.