A escuta psicanalítica e a identidade feminina.
Sentar-se diante de uma mulher no consultório é, quase sempre, testemunhar um mal-estar que não cabe em um diagnóstico rápido de ansiedade ou cansaço. Como psicóloga e neuropsicóloga, percebo que, enquanto o cérebro tenta processar uma carga cognitiva exaustiva e gerenciar as infinitas demandas do cotidiano, o inconsciente sussurra uma pergunta que muitas vezes é abafada pela pressa: quem é essa mulher que resta quando as luzes se apagam e as funções sociais silenciam? No café da manhã, entre um e-mail e o cuidado com os filhos, ou no trânsito, enquanto planejamos a próxima meta profissional, a identidade feminina costuma ser construída sobre uma série de “deveres” que aceitamos para sermos amadas e reconhecidas. Somos a filha dedicada, a profissional impecável, a parceira compreensiva e a mãe que tudo provê. Mas a psicanálise nos ensina que essa identidade feita de espelhos e expectativas alheias é, na verdade, uma prisão de imagens ideais.
Quando Freud lançou sua famosa e controversa pergunta sobre o que quer uma mulher, ele talvez estivesse apontando para algo que ainda hoje tentamos tatear na clínica: o fato de que o feminino não é um conceito fechado, uma biologia ou um destino social pré-traçado. O desejo feminino é uma construção singular, muitas vezes soterrada por camadas de exigências culturais que nos dizem como devemos parecer, produzir e sentir. Na escuta analítica, o trabalho não é oferecer mais um manual de empoderamento ou de performance, mas sim oferecer o direito ao vazio, ao não saber e à desconstrução dessas máscaras. É no silêncio do divã que a paciente começa a perceber que muito do que ela chama de “meu jeito” é, na verdade, uma resposta automática a uma demanda externa que ela nunca se autorizou a questionar.
Mudar essa rota gera angústia, e a culpa é uma visita frequente nesse processo de “des-identificação”. Afinal, abrir mão de ser a mulher que dá conta de tudo é um luto necessário para que o sujeito do desejo possa finalmente emergir. A exaustão que vemos hoje em tantas mulheres não é apenas falta de descanso físico; muitas vezes, é o peso insustentável de sustentar uma personagem que não condiz com a verdade do próprio inconsciente. Escutar uma mulher psicanaliticamente é dar lugar ao que foi silenciado para que a norma pudesse existir, validando que a vida real acontece no avesso da imagem perfeita do feed das redes sociais. Neste mês de março, meu convite como profissional e como mulher é que possamos buscar espaços de fala onde a nossa identidade não precise de adjetivos, validações ou performances. Que possamos, simplesmente, sustentar o risco de sermos donas do nosso próprio querer, descobrindo que a nossa maior potência não está em quanto entregamos ao mundo, mas no quanto conseguimos nos apropriar da nossa própria história.




