Por que alguns meses parecem não ter fim?

Já sentiu que o calendário, de repente, se transformou em um labirinto elástico? Existem meses que passam como um sopro, mas outros parecem estacionar em uma terça-feira cinzenta que dura semanas. No papel, os meses intercalam entre trinta e trinta e um dias, mas a nossa percepção cronológica raramente concorda com o relógio de parede. Para a psicanálise, essa distorção não é um erro de cálculo, mas uma pista valiosa sobre o que está acontecendo no nosso tempo interno.

A verdade é que nós não vivemos no tempo do relógio, mas sim no tempo do desejo e da angústia. Quando um mês parece não ter fim, geralmente é porque estamos operando sob o peso da repetição. Freud nos apresentou o conceito de “compulsão à repetição”, aquela tendência quase magnética de reviver situações, sentimentos ou impasses, repetindo o ciclo. Quando estamos presos em um padrão emocional que não conseguimos elaborar, o tempo para. O dia se torna um eco do anterior, e a sensação de “não saída” faz com que o mês se arraste, transformando trinta dias em uma eternidade subjetiva.

Além disso, a espera desempenha um papel fundamental nisso tudo. Quando depositamos nossa expectativa em um evento futuro (o fim de um projeto, o dia do pagamento ou o término de um período difícil) , o presente se esvazia de sentido. O agora passa a ser apenas um obstáculo entre nós e o que desejamos. Sob a ótica psicanalítica, essa falta que tentamos desesperadamente preencher faz com que cada minuto seja sentido com uma intensidade desconfortável. O tempo só corre quando estamos investidos na vida, quando estamos apenas suportando o peso do real, ele se torna denso e interminável.

Portanto, se você sente que o mês atual se recusa a entregar o bastão para o próximo, talvez a pergunta não seja “por que o tempo não passa?”, mas sim: “o que em mim está parado?”. Muitas vezes, o mês que não termina é um convite do inconsciente para olharmos para aquilo que estamos tentando evitar ou para a angústia que ainda não nomeamos. Afinal, o tempo psíquico é o único lugar onde um segundo pode durar uma vida inteira, e um mês pode se tornar o cenário de um infinito particular.