Trocaram os contos de fadas pelo algoritmo: O que as crianças perdem quando param de fantasiar?

Sinto que trocaram os contos de fadas pelo algoritmo, e essa mudança de suporte não é meramente tecnológica, mas sim uma alteração drástica na arquitetura do desenvolvimento infantil. Sob a ótica de Winnicott, a infância se sustenta na capacidade de habitar o espaço potencial, aquela área intermediária entre a realidade interna e o mundo externo onde o brincar acontece. Quando uma criança ouve um conto de fadas, ela é convocada a um esforço criativo: a floresta, o lobo e o herói não estão ali fisicamente, o que obriga o psiquismo a projetar suas próprias cores, medos e desejos naquelas lacunas narrativas. Nesse processo, a criança exerce o que Winnicott chamava de viver criativo, transformando o mundo em algo que faz sentido para ela.

O algoritmo, por outro lado, opera na lógica da saturação. Ao contrário do livro ou da narrativa oral, que oferecem pausas e silêncios para a elaboração interna, o fluxo incessante de vídeos curtos e estímulos visuais prontos invade o aparelho psíquico sem pedir licença. O que a criança perde quando para de fantasiar em favor do consumo digital é, primordialmente, a capacidade de simbolizar. Se a imagem já vem mastigada, saturada e em movimento, não sobra espaço para a “apercepção”. A criança deixa de ser a autora da sua brincadeira para se tornar um receptáculo passivo de uma realidade que não foi por ela sonhado ou imaginado.

O risco desse cenário é o empobrecimento da subjetividade. Para Winnicott, o brincar é a prova de que estamos vivos e que o mundo pode ser sentido como real. Quando o algoritmo preenche todos os vazios, ele aniquila o tédio, que é justamente o solo fértil de onde brota o gesto espontâneo. Sem o exercício da fantasia, a criança pode se tornar excessivamente adaptada ao mundo externo, desenvolvendo um “falso self” que reage aos estímulos mas não inicia o movimento em direção à vida.

Precisamos então, resgatar o conto de fadas e o brincar desestruturado, pois é ele que garante que a criança não perca o contato com sua própria capacidade de criar o mundo enquanto o descobre.