Como muita gente já sabe, as bonecas reborn são réplicas super realistas de bebês, têm peso, textura e aparência bem parecidas com as de um recém-nascido. Algumas custam caro, chegam a valer centenas ou até milhares de reais, e quem tem uma costuma cuidar como se fosse de um bebê de verdade: dá banho, troca fralda, escolhe roupinha…

Meu primeiro contato com uma bebê reborn foi com uma vizinha do prédio onde eu morava em São Paulo. Ela era colecionadora e fazia bonecas lindíssimas. Mas uma coisa me chamava a atenção: só ela podia entrar no quarto onde guardava as bonecas. As netas, por exemplo, não podiam nem chegar perto. Ela dizia que aquele era um espaço onde colocava muito afeto. Na época, não dei muita importância, mas, agora que esse tema voltou à tona, me lembrei desse caso e fiquei pensando: será que um objeto de coleção pode virar uma forma de conforto? Uma maneira simbólica de viver a maternidade?

Em grupos de pessoas que cuidam de reborns, a gente encontra histórias diversas. Tem mulheres que passaram por perdas gestacionais, outras que não puderam ter filhos, e também aquelas que simplesmente gostam de cuidar. Para muitas, o vínculo que criam com a boneca é verdadeiro e pode, sim, ser terapêutico, mesmo que pareça incomum.

Mas é importante prestar atenção para que isso não vire uma substituição problemática. A boneca pode ter um valor simbólico, ajudando a pessoa a lidar com algo que ela ainda não conseguiu elaborar por completo. Porém, quando esse uso deixa de ser simbólico e começa a se confundir com a realidade, a ponto de substituir relações humanas, provocar isolamento, ou gerar comportamentos compulsivos como dar banho e trocar a boneca várias vezes por dia só para aliviar a ansiedade, é hora de olhar com mais cuidado. Especialmente se houver alguma perda de contato com a realidade, como acreditar que a boneca é mesmo um bebê.

Vivemos tempos de muita ansiedade, vínculos frágeis e individualismo. Nesse cenário, o cuidado com uma boneca reborn pode ser tanto um jeito legítimo de buscar afeto, quanto uma tentativa simbólica de reorganizar alguma dor interna. Buscar acolhimento em um “relacionamento” que é, no fundo, sintético pode parecer estranho à primeira vista, mas talvez seja justamente um gesto de esperança. Uma forma delicada de se proteger do peso do mundo.